Para fazer o download clique aqui.

Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

Cabernet sauvignon, a uva.

A resposta é o Chile, é claro. Ambas as bebidas são fermentadas a partir de uvas generosamente fornecidas pelo profícuo Valle Central. O pisco, aguardente de uva verde, é produzido mais em áreas ao norte, geralmente mais quentes, e promove a conexão entre o presente exportador de bebidas e o passado indígena mapuche. Já os vinhos pedem por temperaturas mais amenas, além de grande disponibilidade de água. Tanto em uma como na outra ponta da bússola, o território delineado irregularmente pela Cordilheira dos Andes produziu condições das mais adequadas para fomentar uma das agriculturas mais férteis em todo o mundo. Naturalmente, quando se deu conta disso, o país se tornou uma grande potência no esmagar dos frutos púrpuros e esverdeados.

Ainda assim, tal profissionalização levou tempo. A ascensão da burguesia chilena no século XIX permitiu que vários jovens se deslumbrassem in loco com o requinte dos vinhos franceses, especialmente da região de Bordeaux. Convertidos pela ocasião em futuros empresários do ramo, levaram ao país alguns varietais – vinhos com com pouca ou nenhuma mistura de uvas – dos grandes rótulos da região. A assessoria dos mestres do ramo possibilitou a expansão sem freios da exploração daquela terra para o cultivo das uvas. Os resultados foram crescentes até a implosão civil do país com o golpe de Augusto Pinochet, que desarticulou a indústria, voltada à época para o mercado interno.

A redemocratização do país embutiu reformas liberais que atraíram o investimento internacional, capitalizando novamente empresas do ramo. Com a conjunção de estabilidade econômica, clima favorável e alta tecnologia, o país escalou alguns degraus no contexto produtor internacional e imprimiu uma marca de “bons e baratos” aos vinhos sul-americanos. Um dos principais responsáveis pela explosão do consumo fora das fronteiras chilenas foi Don Melchor Concha y Toro, que legou aos chilenos uma metonímia do vinho que se produz naquele país.

O vale do rio Maipo, onde se situa a fazenda da família Concha y Toro, segue a fertilizar os vinhedos convertidos em atração turística das mais valiosas do Chile. A região onde se situa, na região metropolitana de Santiago, permite uma visita sem maiores dificuldades com o aluguel de um carro na capital. Um metrô seguido de um curto trajeto de táxi também o leva até lá. Por “lá”, entenda-se que existem outros vinhedos tradicionais nos “sideways” das estradas, mas a grande atração é o lugar onde se fazem os tradicionais Marques de Casa Concha e o Casillero del Diablo, posicionado frequentemente entre os 50 melhores do mundo.

O que era para ser apenas uma fazenda remodelada tornou-se uma espécie de parque temático do vinho. Um casario enorme, onde vivia perdulariamente a família, foi convertido em um salão para grandes eventos. Adegas de inspiração medieval abrigam uma profusão de tonéis de carvalho importado, que imprimem as notas amadeiradas e acentuam o sabor dos vinhos. Uma delas carrega um folclore que se tornou um dos rótulos mais conhecidos da vinícola. Preocupado com os constantes furtos dos vinhos de sua reserva, Don Melchor alimentou a lenda de que o diabo a habitava. A história diz que a história colou, com o que aquela adega ficou conhecida como o Casillero del Diablo e hoje é merecedora de um passeio temático com direito a sons guturais e pouca ou quase nenhuma luz.

Como se vê, o marketing também foi bem absorvido pelos chilenos. Da mesma maneira como a Costa Rica faz com seus cafés tipo exportação, o Chile capitaneou uma busca por grandes enólogos e empresários do ramo em todo mundo, que transmitiram grande conhecimento técnico e transformaram a coisa toda em um grande negócio. Puristas ou não, alguns críticos dizem que tamanha evolução impediu a elaboração de vinhos chilenos autóctones.

Se falta personalidade ou não aos vinhos chilenos eu não sei, mas, para quem tinha experimentado, no máximo, um tour pela esforçada produção de vinhos em São Roque (SP), o breve contato com a vinícola temática talhou a lápide do chapinha no cemitério que é meu passado.

Mas uma catuaba para a bagaceira ainda vai bem.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses



Caymmi e Roberto Carlos

Dorival visita Tom Jobim

Prosa com Ari Barroso

Discografia

LPs

Título Ano Gravadora
Canções praieiras 1954 Odeon
Sambas de Caymmi 1955 Odeon
Canções do mar 1957 Odeon
Caymmi e o mar 1957 Odeon
Eu vou pra Maracangalha 1957 Odeon
Ary Caymmi – Dorival Barroso 1958 Odeon
Caymmi e seu violão 1959 Odeon
Eu não tenho onde morar 1960 Odeon
Caymmi visita Tom 1964 Elenco
Caymmi and The Girls From Bahia 1965 Warner Bros / Odeon
Vinicius e Caymmi no Zum Zum 1967 Elenco
Dorival Caymmi 1969 Imperial
Encontro con Dorival Caymmi 1969 RCA
Caymmi 1972 Odeon
Caymmi também é de rancho 1973 Odeon
Setenta anos 1984 Funarte
Caymmi, som, imagem, magia 1985 Sargaço
Caymmi’s grandes amigos 1986 EMI
Dorival Caymmi 1986 Phonodisc
Dori, Nana, Danilo e Dorival Caymmi (ao vivo) 1987 EMI
Familia Caymmi em Montreux 1991 Philips
Caymmi em familia 1994 Som Livre
Caymmi in Bahia 1994 Polygram

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

Fernando Pessoa (caso alguém realmente não saiba…)

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras. Mas hoje, depois de uma semana destruidora e de perceber que vai perder seu carnaval, se reserva o direito de ser irremediavelmente irresponsável, mesquinho e preguiçoso.

Yuri Machado publica tiras no Sete Doses aos Domingos.

O texto dessa semana foi publicado na revista Bravo! no ano passado. Trata-se de uma análise do conto Judas Iscariotes, de Leonid Andreiev. É um dos contos mais geniais que já tive a oportunidade de ler, por reconstruir a figura bíblica de Judas de forma humana e profunda. Realmente essa semana não tive tempo para sequer pensar em algum texto inédito.

Em “Judas Iscariotes”, o autor russo Leonid Andreiev (1871-1919) se utiliza de uma famosa história bíblica para tratar das contradições humanas. A traição de Judas a Jesus Cristo é recontada por meio de uma narrativa elegante e inteligente que analisa quase psicanaliticamente os personagens envolvidos. Contemporâneo ao nascimento da psicanálise e ao início da teorização sobre as vontades do inconsciente, Andreiev levanta questões existenciais sobre as reais motivações do ato de Judas e o porque de suas consequências.

No conto, Judas aparece como um homem contraditório, ora visto como um mau caráter mentiroso, ora enaltecido pela sua inteligência e visão realista do mundo. O próprio leitor, em seu julgamento, engana-se sobre as verdadeiras motivações do traidor. Para o Judas de Andreiev, não existem pessoas bondosas, mas sim homens aduladores e astutos que conseguem ocultar seus atos vis. Para ele, como para o pai da psicanálise, Sigmund Freud, é preciso enxergar toda a escuridão dos homens para só depois iniciar uma busca pela verdade.

A traição de Judas, na história do contista russo, é resultado de um destino que não poderia ser desfeito; uma força estranha que, pela visão simplista dos apóstolos, é vista como uma manifestação do diabo. Mas o demônio, aqui, necessita existir: sem o mal não existiria o bem. Judas sabe disso e Jesus, que não reage, mas parece saber de tudo, deixa-se levar por essa força incontrolável e necessária.

As contradições se acentuam ainda mais na figura do próprio Judas, que após a traição espera ansioso por uma reviravolta. Ou que os soldados que o prenderam compreendam que se trata do messias e beijem os seus pés ou que seus seguidores o defendam no momento final. Para seu desespero, porém, nada acontece e Jesus é crucificado. Sua lógica parecia estar certa: a linha entre o certo e o errado – ou entre o bem e o mal – é tênue e quase sempre se cruzam. Judas conclui que os verdadeiros traidores foram os apóstolos, que não se sacarificaram por aquele que acreditavam ser o Salvador. A verdade disseminada pelo messias, dessa forma, estava morta: “E que é a verdade nos lábios dos traidores? Não se convertem em mentiras?”, indaga Judas pouco antes de se suicidar.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

07/02/10: Feira de Vinil Paulista
Local: Galeria Trianon, em frente ao MASP
Endereço: Avenida Paulista, 1499 - Jardim Paulista - São Paulo - SP
Horário: 10 às 18hs

13/02/10: Sensorial Sessions
Djs:
Daniel Monteiro e Sandro Garcia
Local: Café Elétrico
Endereço: Rua Francisco Estácio Fortes, 153 - Barra Funda - São Paulo - SP
Horário: 19 às 24hs

27/02/10: Sensorial Sessions
Djs:
Guilherme Seto e Márcio Vaez
Local: Café Elétrico
Endereço: Rua Francisco Estácio Fortes, 153 - Barra Funda - São Paulo - SP
Horário: 19 às 24hs

28/02/10: Feira de Vinil
Local:
Bar Sattva
Endereço: Alameda Itú, 1564 - Jardim Paulista - São Paulo - SP
Telefone: 11.3083.6237
Horário: 12 às 20hs

Sensorial: www.sensorialdiscos.com.br - Telefone: 11. 3333.1914

Café Elétrico: www.cafeeletricobar.blogspot.com - Telefone: 11. 2476.5021

O corpo fraqueja em busca de atenção. E de repente, tudo o que o olho cansado e atento pede é ser notado. A sala permanece cheia, mas na mente só um pensamento: ele. Aquele que seria a salvação chegou para bagunçar e desestabilizar qualquer tentativa de narrativa. Os cabelos enrolados caindo sobre o rosto sem graça, se uniam ao olhar incisivo. A noção de tempo viraria irreversível e transtornável. Apesar de ser um estranho, naquele momento só ele existia para mim. Acompanhado da primeira palavra trocada foi um sorriso sem jeito. O gaguejo era a saída. A risada, a salvação. Meu maior desejo era repousar em seus braços fortes e seguros. O desespero era tanto que não restávamos nada, somente a fuga. Seria mais fácil não te ter do que te perder… E no final ele disse:

“if I’ve never meet you, I will never need to LEAVE YOU”

 

Ana Luiza Ponciano escreve aos sábados no Sete Doses e todas às vezes que precisar, contará com a ajuda de uma das “doses”.

 

Nenhum time na história do futebol foi tão vencedor quanto o Flamengo entre novembro e dezembro de 1981. Em 23 de novembro, a equipe passou pelo Cobreloa por 2 a 0 em um jogo-extra e conquistou o título de uma polêmica Libertadores. No dia 6 de dezembro, a equipe ficou com o título do Campeonato Carioca com o apoio decisivo do ladrilheiro que invadiu o gramado do Maracanã, interrompendo a reação vascaína no final do segundo tempo da decisão.

A consagração mundial viria uma semana depois, em 13 de dezembro. O Flamengo foi ao Japão, colocou o Liverpool, então vencedor da Copa dos Campeões, na roda em 45 minutos, fez três gols e conquistou o título mundial.

Para isso, contou com uma atuação brilhante de Zico, um dos donos do futebol mundial na década de 80, que nem precisou fazer um gol para sair consagrado de Tóquio. Antes dos 15 minutos, um lançamento primoroso para Nunes e um toque por cobertura do Artilheiro das Decisões colocou o Flamengo em vantagem.

Depois dos 30 minutos, Zico cobrou falta com força, o goleiro Grobbelaar rebateu, Lico finalizou, a zaga cortou, mas Adílio fez o segundo gol do time brasileiro. No terceiro gol, o Flamengo repetiu o lance do primeiro, com novo lançamento de Zico para Nunes. E assim o Liverpool descobriu da pior maneira possível que o talento do Galinho de Quintino era impossível de ser marcado.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses e lembra que faz 20 anos que Zico disputou sua última partida pelo Flamengo.

 

Cada recuo de maré é um refugo do mar em ir adiante.

A vida de Aguiar seguia e desseguia assim. Todas suas relações, não só humanas, eram um bololô de valentia e covardia. Pareciam as ondas que agigantavam-se para depois desintegrarem-se em espumas.

Os ponteiros de seu relógio nunca saiam dos eixos. Era um lacaio da rotina, um servo da obediência pessoal. Acordava às 5h30 da manhã e caminhava até o banheiro. Lá, o ritual mesmava dia sim, dia sim. Um bocado de espuma de barbear no pincel espalhando-se por toda a cabeça e pelo rosto. Despelava-se inteiro, preservando apenas o vasto bigode, mais preto que piche.

Era um peso-pesado da retórica. Da mesma maneira que imaginava o que seria de um massagista sem tato, um fotógrafo sem visão, um chef de cozinha sem paladar, um cão farejador sem olfato e uma mulher sem sexto sentido, descabelava-se com a possibilidade de um dia perder a voz. O único ofício que sabia operar com destreza era o de provocar os outros, mas com uma peculiaridade indesejável: arregão como um bumerangue, esgrimava pessoas com palavras para testar seus limites. Quando elas retrucavam trovejando, Aguiar batia em retirada. Feito criança com cachorro bravo, atiçava e corria.

No trabalho, cutucava o chefe elogiando a concorrência de forma ostensiva. Quando o patrão ameaçava cortar seu salário e até mesmo a demiti-lo, o subalterno comportava-se como tal, faltando apenas desejar saúde ao superior caso ele pensasse em espirrar.

No botequim com os amigos que lhe aturavam, fanáticos por Noel Rosa, insultava a todos com ofensas banais contra a Unidos de Vila Isabel. Parecia disposto a sustentar sua opinião até as últimas consequências. Mas, não. Recuava quando os colegas começavam a pagar a conta contribuindo com valores abaixo da honestidade, ameaçando deixar Aguiar arcar com mais da metade da fatura astronômica do bar.

Em casa, impedia sua mulher de ver a novela só para ver a TV Senado, largava meias e cuecas por todos os cômodos e urinava pra fora da latrina. Só amansava quado a esposa coçava o dedo para convocar o sogro de Aguiar a aparecer com sua terrível carabina de sal grosso.

Até o dia em que acordou sem seu canhão de guerra, a voz. Achou que era apenas uma rouquidão avançada e resultado de uma noitada regada a cigarro e cervejas congelantes. Após vários dias recluso em casa, constatou que estava mudo. Para sempre. Saiu de casa direto para o médico. Com anotações em um papel, descreveu ao doutor o lodaçal em que se metera. Passaram-se dias de exames e análises, mas os médicos não diagnosticaram a razão para a mudez de Aguiar, e muito menos encontraram uma cura para seu silêncio involuntário.

Preso em seu quarto, evitava sair para que ninguém descobrisse seu mais novo mal. Agora não era mais só ele, suas palavras também transformaram-se em covardes. Sabia que quando desse as caras ao convívio social novamente, seria mais humilhado que time pequeno.

Pra não correr o risco de ser achincalhado em praça pública, foi à desforra por antecipação. Saiu ao encontro de todos que um dia ousaram lhe levantar a voz. Com uma navalha no bolso do jaquetão, Aguiar queria pares idênticos e calados. Com Palpite Infeliz, de Noel Rosa e Vadico, pulsando no iPod, arrancava a língua dos desafetos e as guardava em pequenos frascos com gelo. Em casa, postava-se diante do espelho e brincava de mímica com as línguas como se fosse uma matraca.

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, e passa o aniversário sozinho no dia 3 de fevereiro, em silêncio

Próxima Página »