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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

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Morro de São Paulo tem uma sequência matadora de atrativos para quem pretende existir por lá alguns dias. O lual das quintas-feiras é um bom exemplo: uma horda de frutas e garrafas ocupa mais de 20 barracas no fim da segunda praia. O colorido das melancias, abacaxis e dos animados vendedores atrai os turistas para o ritual de degustação de roskas – apelido carinhoso da caipirinha de vodka. Pode-se tomar, por exemplo, uma versão com maracujá, morango e abacaxi dentro de um cacau por R$ 7.

 

Tanta fartura se explica pela abundância de frutas na ilha, certo? “Nada disso”, me disse um dos vendedores. Aquele território insular torna tudo mais caro. Não se produz fruta, peixe ou qualquer outra mercadoria na ilha na escala adequada para o consumo da turistada. Então a mercadoria é toda importada da cidade mais próxima com conexão terrestre, Valença. Pela manhã, pude acompanhar a chegada dos barcos com gás, hambúrgueres, verduras, frutas etc. Boa parte disso segue para o lombo dos burros que auxiliam os locais. Muitos descarregamentos são feitos para abastecer as mais de 200 pousadas do lugar. O número é até baixo para a impressão que se tem. De todos os estabelecimentos comerciais disponíveis em Morro, 30% é hospedagem, 30% é restaurante e o restante se divide em lojinhas bem charmosas de artesanato, decoração e confecção, além das óbvias agências de viagem que te empurram qualquer deslocamento para lhe arrancar um filão da sua carteira de turista desprendido.

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Descarregamento matinal de mercadorias

Caí em uma dessas, embora estivesse consciente. Morro de São Paulo faz parte da Ilha de Tinharé, mas é circundada por Boipeba e Cairu, outras duas ilhas que também têm próximas outras ilhotas. Comprei um passeio que circunda o arquipélago todo a bordo de uma lancha rápida para 15 pessoas. O primeiro ponto de parada é em uma área de piscinas naturais com um bar flutuante. Eram 10 horas da manhã, ninguém para servir ou para aceitar um drinque, então ficamos apenas mergulhando atrás dos peixes mais coloridos que conseguíamos encontrar. A próxima etapa é uma trilha em um vilarejo que nem ruínas de banheiro tinha. Foi a melhor definição de rusticidade que eu encontrei até então. Areia fina, troncos retorcidos, alguns arremedos de intervenção humana com palhas para conter alguma mercadoria que por lá chegar, e só. Segui o caminho trocando as impressões com um amigo chileno, o Santiago. Mais de 40, com filhos, viaja o mundo uma vez por ano e, cada vez com mais frequência, visita o Brasil. Ele me diz que pretende encaminhar os filhos, aposentar-se e levar a esposa para cuidar de uma pousada em um lugar exatamente como Morro, onde a vida se saboreia, não é apenas cumprida.

 

Enquanto esperávamos por uma lagosta grelhada, uma vendedora de artesanato surgiu e nos ofereceu seu trabalho. A mulher era uma hippie moderna e nos deu uma visão empresarial da atividade que escolheu, desde que fugiu do Pinochet. Sim, outra chilena. Os dois trocaram algumas impressões sobre o país de origem, mas as semelhanças pararam por aí. Santiago é empresário, montou seu próprio negócio no sul do Chile e passa os feriados enfurnado em uma cabana no meio do parque Torres del Paine com a família toda. A mulher mora há 15 anos em toda a América Latina, vive de artesanato desde então e já conseguiu preparar os filhos para estudarem no exterior, além de comprar três casas simples na Ilha de Boipeba. Vive embasada por seu discurso paz e amor, mas ostenta um olhar determinado, de quem travou muitas lutas para defender a opção de ser livre. “Vendo arte, não peço esmola”, costuma dizer a quem pechincha demais. Ela ainda dá aulas de artesanato em uma escola local, dirigida por um alemão, que segue o método Waldorf.

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Santiago e a lagosta grelhada

Os princípios pedagógicos de primazia da liberdade, prolongamento da infância e atendimento individualizado também atraíram outros gringos, que renunciaram a seus países para viverem e criarem seus filhos em um excerto do paraíso. Essas crianças provavelmente não se tornarão CEOs, mas desenvolverão uma visão de mundo muito afinada com o ambiente de coletivização em que estão inseridas na ilha. Travei uma rápida discussão sobre o tema com Santiago, que a encerrou com um comentário que segue a linha “Faça as suas opções; eu valorizo todas, desde que você se responsabilize por todas as complicações que nelas estão inseridas”.

 

Faz uma semana que isso aconteceu e ainda continuo pensativo sobre as minhas opções. Talvez transcorra a vida toda e eu ainda pensarei. Sei, no entanto, que preciso continuar a viajar para questioná-las.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

- Você tem que trazer ela sempre?

- Ultimamente, sim.

- Mas… Por quê?

- Não sei. Tenho tentado te encontrar sem que ela venha. Tem sido impossível.

- Assim você não pode nem chegar perto de mim como quer, não é?

- Não dá. Ela me reprime na hora.

- Não foi assim sempre. Lembra? O que houve? Não consegue convencê-la por 5, 10 minutos? Nem pegar na minha mão agora? Quanto mais o resto. Pelo amor de Deus!

- Ela não deixa de jeito nenhum. Há algum tempo tem sido muito mais forte que eu. É engraçado. Desse jeito, só aparece quando encontro com você.

- Que ótimo. Então subitamente eu sou premiada! Não tem nada pior do que um homem sem atitude.

- Isso eu sei!

- Isso é ridículo… e você, concordando comigo, é um fracasso.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

Clique aqui para baixar o podcast.

No sábado, dia 7 de novembro, realizo mais um dos meus sonhos, vou assistir, ao vivo em São Paulo, o Jane’s Addiction. Não escondo minha excitação para escutar os grandes clássicos da banda como:

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01 - Jane’s Addiction - Stop

02 - Jane’s Addiction - Been Caught Stealing

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03 - Jane’s Addiction - Ocean Size

04 - Porno For Pyros - Sadness

05 - Porno For Pyros - Cursed Female

No começo dos anos 90 quando o Jane’s Addiction acabou, o Perry Farrell montou com o Stephen Perkins, o Porno For Pyros. A pegada era a mesma, o bom rock’ n’ roll da antiga banda, misturado a outros elementos como o punk e o funk. Lembro COM PRECISÃO que depois que escutei “Sadness” e “Cursed Female” pela primeira vez, uma interrogação ENORME ficou em cima da minha cabeça e eu me perguntava: “e agora?”

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06 - Porno For Pyros - Freeway

O baixo dessa música é tocado pelo Flea, do Red Hot Chili Peppers.

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Em 1999, o Porno For Pyros já havia encerrado as atividades e o Jane’s Addiction tinha acabado pela segunda vez. Nesse mesmo ano, uma compilação oficial chamada Rev foi lançada. Nela havia o material das duas bandas mais algumas músicas inéditas do Perry Farrell em carreira solo.

07 - Jane’s Addiction - Superhero

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08 - Jane’s Addiction - Idiots Rule

09 - Jane’s Addiction - Standing In The Shower Thinking

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 10 - Porno For Pyros - Tahitian Moon

O disco Good God’s Urge do Porno For Pyros é menos rock’ n’ roll que o primeiro, mas não faz feio ao legado da banda. Bons exemplos são “Tahitian Moon” e “100 Ways”.

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11 - Porno For Pyros - Pets

Tenho boas lembranças de 1993, que na minha história foi “o ano que não devia terminar” (*). Pets” encaixa PERFEITAMENTE como trilha sonora desse ano.

12 - Porno For Pyros - 100 Ways

13 - Jane’s Addiction - Mountain Song

Essa música é um dos maiores clássicos do Jane’s Addiction. Além do vocal IMPECÁVEL, os riffs de guitarra do Dave Navarro são inconfundíveis. Não à toa o cara é considerado como um dos melhores guitarristas da sua geração.

14 - Jane’s Addiction - True Nature

15 - Jane’s Addiction - Thank You Boys

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(*) Usei parte do título do livro Feliz 1958 - O Ano Que Não Devia Terminar” do Joaquim Ferreira dos Santos, para expressar o quanto 1993 foi importante na minha vida.

Clique aqui para saber mais sobre o livro.

 

Na sexta feira, dia 13 de novembro, o conteúdo desse podcast, publicado no domingo, será removido para a sexta feira, dia 6.

 

IMPORTANTE:

O problema técnico que deixou as edições anteriores fora do ar, está próximo de acabar. Mas até a solução TOTAL chegar de fato, TODAS estão fora do ar, exceto essa. Caso você queira algum podcast anterior, deixe um comentário que disponibilizo o arquivo.

 

Lex publica seu podcast às sextas-feiras no Sete Doses

Especial 5 de 7

a. Inéditas da Exposição no Otto Bistrot:  Agora os sonhos já não morrem mais, Pequenas memórias

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b. Dedicatória da exposição (carta sem revisões):

“Lá, você saída de um dos banheiros do corredor em t. Vestia um pulôver vermelho com gola alta (como aquele que você tinha fora do sonho, cheio de ondas pontudas, azul; lá de 2002), e óculos escuros bem arredondados. Não tanto. Eu vestia um boné largo que cobria quase todo o cabelo, e estava de barba, misturado. A camisa vermelha como a sua lã – aquela xadrez que chegou depois de você decidir devolver, através da minha irmã, o filme que eu tinha te emprestado para que tivesse de me ver mais uma vez. É sério dizer que essa minha camisa e você nunca se conheceram.

O banheiro era da minha casa em Boituva, e realmente não é de se saber o que você fazia ali. Mas na hora não me foi tanta surpresa assim, pois tinha sido avisado que você voltara recente da Europa. De Paris para Boituva. Da caixa no maleiro para um sonho triste desses de começar a semana. E você só me reconhecia quando eu tirava o boné, e te dizia quem era eu. “Oi” as vezes quer dizer quem é você. Abria um sorriso, porque você sempre abria o mesmo sorriso. Mas não me abraçava senão depois, quando eu abrira os braços para seqüestrar o seu corpo algum tempo. Você, na sua educação, se deixaria então sequestrar – mas com aqueles horríveis tapinhas nas costas, que (também é preciso dizer) são como fingir um orgasmo.

Saía depois, andando com os pés um pouco separados, como você fazia. E, magra, sempre magra, eu podia reconhecer em você o formato nem tão esguio das costas. Os cabelos loiros assombrados pelo corredor de ladrilhos frios. As mãos e as unhas nada postiças. A sua boca aberta, respirando, o corpo furtivamente se inclinando para frente. E saía pela porta que já não poderia ver dali do corredor, mas via como se estivesse na sala da lareira – descia o degrauzinho para a varanda, onde estava de volta outra vida morta minha, ou só aquela árvore, aquele pinheiro enorme e cheio de cascas soltas que mamãe mandou cortar em um Natal dos anos noventa, porque achava que aquilo era planta de cemitério. Quando ela dizia daquele pinheiro, eu imaginava um tatu canastra plantado – porque este animal é quem cava e devora os cadáveres. E lá estava o imenso tatu, com o rabo transformado em raiz e as garras imensas uivando com o vento. Ele olhava manso para os cabelos loiros dela, desassombrados pelo sol. E ela andava em direção à vila nova Boituvinha, a cidade que está nascendo do outro lado da minha cerca, e que não existia ainda quando ela ainda. Não sei para que iria para a vila nova Boituvinha, mas seria preciso dizer que no verão, quando vinham as enchentes, as casas de tijolo vazado se tornavam submersas, com aquele novo tatu que vinha do rio, alagando tudo. Desenterrava, de baixo dos telhados, aquela gente toda que nem cartas podia receber do mundo dos vivos, de lá de onde os loteamentos eram oficializados pela prefeitura.

Da minha varanda, enfiando a cara entre os braços de uma samambaia, gritei pra que ela soubesse que, passando a cerca, estava Atlântida. Ela viraria, rindo, como se fosse ontem, como se fosse 2002 e gritaria de volta que o tatu que subia e desenterrava as pessoas dos seus telhados não era o rio Sorocaba, mas exatamente o oceano Atlântico. Que ela sabia. E passaria a cerca da mesma forma. Eu gritaria por quê? Pois tinha certeza que ela não tinha entendido que aquela era a cidade secreta, escondida, que começava a nascer sempre na primavera, para voltar a ser só lembrança e doer e doer no verão. Mas eu que não entendera nada. Ela pulava a cerca, para o nosso tatu Atlântico. Que estava seco, agora, verdade. E só daí entendi, que era como atravessar o deserto, como atravessar o deserto enquanto o mar tocaiava as nossas lembranças que adormeciam por cada vez mais tempo com o passar dos anos. Ela atravessaria esse deserto imenso que ligava meu sítio à Europa, onde ela de vez em quando deveria me encontrar também, saído de um banheiro ou de uma fotografia.

(sonho triste ou acho que você vai continuar sendo a minha única lembrança inédita)

Última carta

Dia 31 de Agosto de 2009

c. “Primeiros Desenhos (2000/2003)”.

Caderno 2

(Retrato em caderno e bic, Janeiro de 2000, Tio Amilton)

Yuri Machado publica tiras no Sete Doses aos Domingos.

* Baseado em fatos reais

Ela, beleza natural, de all-star vermelho, cabelo moderninho, calça social justíssima e uma camisa toda colorida. Ele, japonês, calça social marrom, sapato fora de moda e camisa de seda que nem meu avô usa mais.

Ela de um lado do vagão do metrô, sentada e compenetrada em uma edição da revista Info, que trata em todas as suas páginas do nem sempre fascinante mundo da informática. Ele do outro lado, em pé e absorto nas páginas da mesma publicação. Os dois com os olhos fixos, liam no mesmo ritmo e com o mesmo sabor – era perceptível em suas expressões e nas maneiras com que devoravam as informações. Ambos calados, olhos baixos e pouca atenção ao redor.

Observei a cena com um olhar romântico quase infantil. Pensei comigo: e se esses dois se conhecessem? Passei a imaginar e conclui que um havia nascido para o outro. Ela preenchendo as lacunas e o libertando, ele oferecendo um mundo mais racional e sereno. Duas pessoas diferentes no modo de se vestir e pensar, mas, com certeza, ansiosas para conhecer personalidades complementares. Aquela revista Info não deixava dúvidas da ligação absoluta entre ele e ela.

As estações foram ficando para trás e meu desespero aumentava. Que injustiça, os dois precisam se conhecer, trocar palavras, um olhar já bastaria. O que fazer? Dou um jeito de interferir a leitura e apresentá-los? Não, me achariam um completo maluco. Como vou apresentar duas pessoas que nem sequer conheço ou sei os nomes?

A estação em que eu desceria estava próxima. O trem foi parando lentamente, minha angústia aumentava. Quando a campainha da porta já soava, sai do vagão. Olhei mais uma vez para os dois. Ela tinha parado de ler a revista, ele já a guardava na bolsa. Sim, após aqueles atos casuais, os dois se observariam e seriam tomados pela paixão mais avassaladora de suas vidas. Ele, tímido, ela, impulsiva. O vagão sumiu da minha vista. Abri um sorriso, sai pelas calçadas da Avenida Paulista e acreditei piamente em minha fantasia.

 André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Obs: baseado em fatos reais.

A ideia de todo documentário é poder levar o espectador onde ele não poderia estar e fazê-lo sentir exatamente o que era aquele momento. Poucas vezes esse objetivo é cumprido. Mas Michael Jackson’s This it It nasceu para isso, para mostrar o que era ser um mito, o que era ser o maior cantor pop de todos os tempos.

Kenny Ortega, diretor do filme (o mesmo de High School Music Band) editou 120 horas de gravação dos ensaios da turnê de cinquenta shows marcados para a O2 Arena, em Londres, colocou depoimentos e pronto. Tudo já estava lá. Não era preciso um diretor, Michael estava em cena, fazendo o que sabia melhor: encantar as pessoas.

Durante o filme percorremos o caminho do staff de Jackson, sentimos como seria fazer parte da mega estrutura montada para os shows, andamos pelo palco, ouvimos a voz poderosa de Michael oscilando entre a felicidade e a solução de problemas. Tudo como se fôssemos parte daquele projeto.

Os caminhos percorridos pelo diretor são vastos e muitas vezes cansativos, ele tende a mostrar sempre o melhor lado do cantor. Escondendo que Jackson vivia à base de remédios, pesava menos de 50 quilos e, muitas vezes, precisava de ajuda para se locomover.

Tudo não passa de um grande ensaio. Mas um ensaio que para qualquer outro cantor poderia ser técnico, para MJ e sua trupe era uma lição. Afinal, ele era apenas uma criança que não cresceu, uma criança com milhões de olhos voltados em sua direção. E sempre com as pessoas fazendo exatamente a sua vontade, nem que isso signifique colocar uma escavadeira no meio do palco para mostrar como seria a destruição de Michael.

A destruição aconteceu, de forma diferente, e o fã que se nega a assistir ao filme acabará perdendo o que provavelmente seria uma das maiores experiências de sua vida. E no final, o que fica claro com o longa é que o mundo perdeu o seu maior artista pop, talvez o inventor do gênero, e que ninguém nunca, nunca ficava indiferente à presença daquela pessoa magra de roupas coloridas e voz inigualável.

 

Ana Luiza Ponciano escreve aos sábados para o Sete Doses e todo dia para o R7, e quando falta tempo, bem, ela copia as suas matérias do R7 para o Sete Doses

É fácil cravar que o Campeonato Brasileiro de 1985 teve a final mais inesperada com uma grande zebra levantando o troféu: o Coritiba. Coisas de uma época em que os regulamentos da competição eram esdrúxulos. Eram 44 times, divididos em quatro grupos, de acordo com o ranking da CBF e a campanha nos últimos estaduais. Turno e returno para apontar as 16 melhores equipes para quatro novas chaves. Os vencedores de cada grupo iam para as semifinais, de onde saíram os finalistas, que disputariam uma partida única. Se a fórmula era complicada, não faltavam craques e favoritos naquela Taça de Ouro. Mas eles decepcionaram e pararam cedo na competição.

O Flamengo, de Jorginho, Leandro, Mozer, Andrade, Adílio, Bebeto, Fillol, Lico e Tita, o Internacional, de Mauro Galvão, Ruben Paz, Luís Carlos Winck, Gilmar, Aloísio, Ademir, e Kita, a seleção corintiana, com Carlos, Édson, Juninho, Wladimir, Dunga, Casagrande, Paulo César, Arthurzinho, Serginho, João Paulo, Biro-Biro, De Leon e Zenon, o Fluminense, de Paulo Vítor, Aldo, Duílio, Branco, Ricardo Gomes, Vica, Jandir, Leomir, Delei, Romerito, Assis, Washington e Tato, e o São Paulo, com Oscar, Darío Pereyra, Nelsinho, Pita, Müller, Careca e Sidney, pararam na segunda fase da competição.

Entre os favoritos ao título, apenas o Atlético, que contava com João Leite, Sérgio Araújo, Edivaldo, Éder, Elzo, Everton, Luizinho, Nelinho, Sérgio Araújo e Reinaldo, avançou às semifinais. O Galo, porém, parou no Coritiba. Depois de uma derrota por 1 a 0, no Couto Pereira, o time de Belo Horizonte não conseguiu sair de um 0 a 0, em um confronto marcado por uma arbitragem polêmica e uma atuação destacada do goleiro Rafael.

Nem por isso, o Coritiba foi apontado como favorito na decisão. Afinal, o Bangu tinha campanha melhor e assim disputaria a final em casa, no Maracanã. As torcidas cariocas se uniram, encheram o estádio com o objetivo de apoiar o time do subúrbio, que contava com o craque Marinho, mas também com o botineiro Márcio Nunes, e aguardando o desfile do time no carro do corpo de bombeiros, estacionado fora do Maracanã.

Na final, depois de um gol de Índio, em cobrança de falta, o Bangu igualou o placar com Lulinha e levou o confronto para a prorrogação que terminou 0 a 0. Na disputa por pênaltis, Ado perdeu sua cobrança. Em seguida, Gomes bateu e sacramentou a vitória do Coritiba por 6 a 5 e a conquista do título brasileiro pelo Coritiba.

Um triunfo que consagrou o gaúcho Ênio Andrade, que havia sido campeão nacional com o Inter (1979) e o Grêmio (1981). Um treinador sempre preocupado com a preparação física e tática, e que sempre montou times matreiros, malandros e chatos.  Características de um elenco que tinha as defesas impossíveis de Rafael, a velocidade e dribles do ponta Lela e os passes precisos do meia Toby, que deram ao Coritiba a maior glória de seus 100 anos, que também contam com a conquista de um Torneio do Povo (1973), uma Série B (2007), dezenas de estaduais, e a revelação de craques como Dirceu e Alex.

Leandro Augusto publica vídeos esportivos históricos aos sábados no Sete Doses.

 

Era descampado. Nada por perto. Vida não havia aos olhos e sentidos nus. Apenas uma árvore curva, anatômica. O Sol castigava até os cascudos e calejados de epidermes surradas. Aparentemente, Clóvis se achava só. Fatigado, recostou-se naquele tronco convidativo. Tirou da cabeça o chapéu para cobrir o rosto de pele encarquilhada. Sem sinal de animais. Formigas, borboletas e pássaros ali não passavam de lendas. Ouvia-se apenas o assobio silencioso da brisa.

Mesmo sem relógio de pulso, Clóvis bem poderia contar as horas, minutos e segundos pela disposição solar. Nem que tentasse. Ali não existia tempo, apenas uma leve noção dele, a longo prazo. Só notava-se que o presente virara passado ao ver que as folhas da copa da árvore solitária deitavam no chão, secas e retorcidas. Ou quando Clóvis recontava o número de pintas e manchas da terceira idade que pipocavam no dorso de sua mão, e percebia que, da noite para o dia, a quantidade havia aumentado discretamente.

Clóvis não esperava nada da meteorologia. Não queria sujeitar suas vontades ao clima. Todas as manhãs repetia para si mesmo: “quem espera tempo bom é sertanejo”. Sem relógio ou companhia para lhe clarear os caminhos, não sabia sequer quantos anos tinha. Lá, o tempo jazia.

Era velho, mas nem disso sabia também. Conhecia as rugas apenas pelo tato. Sem espelho para se mirar, conhecia vagamente suas feições das vezes em que tentava se descobrir no reflexo do riacho. Por quanto mais tempo viveria isolado e enclausurado em si mesmo? Pouco, talvez.

Como todas as vezes, acordava do cochilo em sua árvore e caminhava sem pressa de voltar. Seguia cada feita por uma direção desconhecida. Eram quilômetros. Picos e vales intermitentes e intermináveis. A sensação de poder era imperativa, já que era dono de todo aquele descampado, tudo era só seu. Não precisava – nem tinha como – dividir todas as suas posses.

Como flertava com o acaso, certo dia, depois de tanto caminhar, avistou uma colina alta que não lhe parecia familiar. “Nunca tinha visto aquele morrão. Estranho… Quem será que botou ele bem ali?”. Decidiu encará-lo de frente, debaixo para cima. Destemido, subiu. Do lado de lá, uma visão ineditamente deslumbrante. Um extenso campo circular de girassóis, cujos brilho e vivacidade feriam os olhos. Lá do topo avistavam-se um clarão diminuto e uma zona desplantada bem ao centro do prado.

Clóvis desceu no embalo das vistas doídas, afinal, nunca tinha visto tanta cor e tanta vida em sua vida. Tocava os girassóis com a inocência de um recém-nascido. Cheirava cada miolo e cada pétala como se fosse perder o olfato no próximo segundo. Na medida em que se aproximava da parte descampada no centro do campo, o vento soprava mais forte, bagunçando seus cabelos, e o ar se rarefazia violentamente.

No olho daquele furacão florido, a cena que jamais sairia da mente de Clóvis. Uma bailarina deitada na relva, com os olhos marejados. Como se ignorasse a presença daquele estranho, ela permanecia estática, com os olhos fixos nas nuvens. Repentinamente, a bela moça desatinou a falar. Dizia palavras desencontradas no seguinte discurso:

- Meu par, perdi meu par. Deixei o palco, saí dos trilhos. Parece que sabotei meu próprio roteiro. Não lhe conheço ao certo, mas presumo que você chegou tarde demais por aqui. Tem um jeito lerdo de ser, de quem muito quer, mas pouco pode. Invejo isso, pois vive de forma atemporal, alheio ao tempo de paz, que, como dizem, não faz nem desfaz. Se pudesse, morreria em você. Uma pergunta: onde a vida é mais graciosa, no meu campo de girassóis ou no seu descampado carregado de sofrimento e candura?

Desnorteado, Clóvis limitou-se a responder:

- Quem fala muito diz pouco.

Sem se despedir, deixou para trás os girassóis de volta ao seu mundinho. Lá, deitado em sua árvore, dispensava a previsão, abraçava a preguiça e vivia para si mesmo, calado.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

E aí galera, eu sou o lex e a dose_INDIE dessa sexta feira será publicada no domingo.

A boa nova é que o problema técnico que deixou as edições anteriores fora do ar, está próximo de acabar. Mas até a solução TOTAL chegar de fato, TODAS estão fora do ar, exceto a de domingo. Caso você queira algum podcast anterior, deixe um comentário que disponibilizo o arquivo.

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Lex publica seu podcast às sextas-feiras no Sete Doses

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