Encontrei-me com o Ser Inexistente durante minha visita ao Rio de Janeiro no último mês de março. Em um café de Copacabana – na arborizada e tranquila Rua Santa Clara – entrevistei-o com exclusividade para o Sete Doses. Não vestia nada, não possuía nenhuma aparência, não respirava, nem falava: simplesmente não existia. O bate-papo durou um tempo indeterminado e incalculável. Minha pauta foi baseada em questão nenhuma. O ser inexistente é o maior especialista sobre o nada que a humanidade já conheceu. Ultimamente, infelizmente, a imprensa não tem lhe procurado como fonte. Uma ínfima parte de nossa conversa segue abaixo. Tentarei colocar todo o conteúdo aos poucos aqui neste espaço. Daqui para frente, o Ser Inexistente será figurinha carimbada aos domingos, já que posso reencontrá-lo a qualquer momento, em qualquer lugar.

Eu (de costas) e o ser inexistente (de frente) durante entrevista em Copacabana. Para ele, liberdade significa responsabilidade. “É por isso que tanta gente tem medo dela", afirma

Eu (de costas) e o Ser Inexistente (de frente) durante entrevista em Copacabana. Para ele, liberdade significa responsabilidade. “É por isso que tanta gente tem medo dela", afirma

Boa tarde, Sr. Ser Inexistente. Muito obrigado por me receber para essa entrevista. Gostando do Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro continua me causando o mesmo impacto de sempre. O sol ilumina de um jeito diferente aqui. 36 graus aqui são diferentes de 36 graus de outros lugares. E não é que o calor é mais intenso, é a luz que parece incidir de forma diferente, deixando tudo mais brilhante, nítido, quente. Além disso, música brasileira tem 47235 vezes mais graça se ouvida, tocada, composta, cantarolada ou assobiada aqui no Rio de Janeiro. As livrarias e os cafés cariocas conseguem ser mais simpáticos do que os paulistanos com muito menos esforço. O mérito é a localização: na calçada tudo é mais charmoso. E chega-se à conclusão: shoppings são para quem não tem praia aos finais de semana. Mas também tem seus problemas: o Rio de Janeiro é quente. Calor dá sono. Beber café acorda. Café é quente. O Rio de Janeiro é quente. Resumindo: sentir calor para acordar ou sentir sono com o calor?

Bom, para começarmos de fato, gostaria que o senhor falasse um pouco sobre como anda sua carreira e sua vida pessoal…

Para dizer a verdade, estou muito cansado. Acho que tenho que tentar descansar e dormir. Como bem sabe, a vida necessita de pausas. Tudo bem, vou ser franco de uma vez: estou perdido em todos os sentidos. Que esforço para me manter vivo! Erguer um monumento não requer um esforço tamanho. Ai, meus pobres nervos! Já percorri tantos anos e não aconteceu nada. Queria sentir uma mudança qualquer em mim. Uma ruga a mais, por exemplo. Uma coisa nova, nem que fosse de velhice. Que Deus me dê tranquilidade. Agora, quem me poderia tirar da depressão que estou sentindo? Que parente? Que amigo? E tenho a impressão de que seria fácil melhorar-me. Bastaria que alguém me garantisse uma solidariedade incondicional – assim como um pai. Alguém que fosse mais forte do que eu, entende?

Provavelmente, isso tem relação com o que ando lendo por aí. Dizem que o senhor está passando por uma crise de criatividade, que não tem mais produzido, que está desistindo. É verdade?

Sim, ando meio indiferente a tudo e não consigo criar. A cada segundo que passa percebo o quão insignificante e pequeno sou. A vida me tornou uma pessoa amarga. Cada amanhecer mais insuportável. Tenho culpa nisso, assumo. Assim como os vacilos e desgastes das relações humanas tiraram o brilho do meu cotidiano – do momento em que me levanto ao instante em que me deito -, os anos de convivência nesse atoleiro de desilusões deixaram o meu foco artístico muito mais opaco. Fiquei rabugento, ranzinza, chato mesmo. Meu olhar ficou viciado em objetividade, infelizmente. Minha cabeça pensa em podar coisas livres, lamentavelmente. Mas ainda não desisti, não desisti…

Por seu estado, o senhor acha que sua vida está se esgotando?

A vida sempre acaba, e não é uma vez só. É como se tudo que fizéssemos embolorasse logo depois, fazendo com que esquecêssemos do gosto do que comemos. Fica só a lembrança daquele cheiro de mofo e aquela aparência decrépita, de coisa passada do ponto, de oportunidade perdida, coisa mal aproveitada. Por que eu bebo a vida mesmo? Afasta de mim! A vida, no final, fica meio janta requentada, café de vó – muito doce, fraco e escaldante -, pão amanhecido. Você nunca sentiu ressaca da existência? Os dias passam e parece que a cerveja sempre acaba nas horas improváveis, quando a adega do bairro já fechou. A esperança é um engradado vazio: só decepção e inutilidade. Você está faminto, pega o pão e não há fatias o bastante de salaminho para preencher o sanduíche. Coito interrompido, motel sem cama, banheiro sem papel, festa só com vodka barata, visita da sogra. A existência é o óbvio desagradável, a surpresa de má-fé, a surpresa perversa. É despertar continuamente dos sonhos bons. Ano inteiro de quarta-feira-de-cinzas. A vida é sempre o dia anterior.

O senhor não crê ao menos em um destino para os homens?

O destino é o pensar. No fundo, a sabedoria do destino é a nossa própria. Seguimos o destino tendo consciência daquilo que no fundo nos é permitido realizar. Por mais tentações que tenhamos, nunca erramos nisso: sempre agimos de acordo com o destino. As duas coisas são uma só. Quem erra é quem não compreendeu ainda seu destino. Ou seja, não compreendeu qual é a resultante de todo o seu passado – que indica o seu futuro. Mas, compreenda-o ou não, indica-o do mesmo modo. Toda vida é exatamente aquilo que devia ser.

Então o senhor não acredita em nada?

Parece que me apaixonei pelo nada, mas acredito em mudar o pensamento dos homens sobre si mesmos e, consequentemente, seus destinos. É minha última luta e vou morrer tentando. Tenho pena da época em que vivemos. Tudo bem, o homem sempre foi bestial, mas hoje nem arriscar ele arrisca… Vivemos num mundo sem consolo, do qual Deus se retirou, e não fazemos nada para mudá-lo e nem para construirmos o nosso destino. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos. Mesmo com todo o conhecimento que as gerações anteriores nos legaram e com as possibilidades da Internet, estamos acomodados com a situação deplorável em que nos encontramos. Anote: em uma terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo. Eu estou fugindo. E me diga uma coisa: do que adianta você ter essa alma colada aos ossos, dessa carne errada? Sem o risco a vida não vale a pena. Se você não quiser arriscar, não comece. Isso quer dizer: e se você arriscar e perder namorada, esposa, filhos, emprego, a cabeça e até a alma? Mas é sempre melhor isso do que olhar para todas essas outras pessoas que nunca acertam, porque nunca se propõem ao risco. O dono da verdade precisa é descobrir a verdade sobre si mesmo. Não tem jeito, nossas verdades são só palpites; tudo que não inventamos é falso. Precisamos descobrir o que somos e qual será o nosso destino. Afirmo: isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.

Acha que é por essas idéias que consideram o senhor um louco? O que tem a dizer a respeito dessas acusações?

Nós não podemos falar nada sobre nós e a nossa época sem começarmos por definir a loucura. Como é que se explica que nós sejamos seres dotados de razão, enquanto a nossa sociedade é tão ligada à loucura? Como pode uma pessoa que se gaba por ter toda a sua razão agir como se estivesse louca e acreditar nas ideias loucas que a sociedade lhe impõe? Nós podemos encontrar uma resposta para isso com aqueles que perderam a razão. O que é que os deixou loucos? As pessoas ficam assim quando não chegam a criar uma relação funcional e prática com a sociedade e com a realidade. O que eles fazem? Eles criam uma sociedade que é uma realidade para eles. Eles ficam loucos para não perderem a sua razão. A sua loucura é a explicação que eles dão para a loucura que eles encontram no mundo. A loucura é a saída mais viável. Essa é a minha filosofia e deveria ser a sua também. Lembre-se: nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram.

Não é incoerente o senhor desprezar a vida, afirmar que ela é sempre o óbvio desagradável, e logo depois falar dela com tamanha paixão?

Eu amo a vida! O direito à incoerência deve ser dos primeiros reivindicados pelo ser humano. Qualquer homem inteligente é incoerente. A coerência é apenas um exercício de uma inteligência essencialmente incoerente.

O senhor também é constantemente acusado de ser um vagabundo. Dizem que é escritor e poeta, mas que nunca lançou nenhum livro. Afinal de contas, qual a sua profissão? Em que horário o senhor exerce suas funções?

O escritor vive. Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis. Quem é poeta é poeta sempre, e se vê continuamente assaltado pela poesia.  Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas, assim como o músico se sente procurado pelo estranho mundo dos sons, o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável circunstância de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade. Não me venha falar de profissão. Escrevo quase porque não há felicidade ou dor que sejam apenas físicos, os dois sempre recebem intervenções do passado, das circunstâncias, do assombro e de outros fatos da consciência e da inconsciência. Desculpe, mas não sou um homem de frivolidades e inutilidades sem sentido metafísico.

Então, para o senhor, só a arte pode nos salvar?

Salvar? Sei lá. Só sei que as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.

Acha que as gerações futuras ouvirão sua voz algum dia? Parece-me um pouco romântico demais para um mundo cada vez mais eficiente.

Difícil. O problema é que os pais de hoje não olham para as crianças como crianças, mas como brinquedos articulados, ou pequenos animais de estimação, que servem para entreter, embaraçar ou simplesmente importunar os outros. Na Idade Média, as crianças eram erradamente tratadas como adultos. Mas o século 21 viajou até o outro extremo: permitiu que os pais se convertessem em crianças pela forma sentimental e deslumbrada como tratam das suas. Mas tudo bem, vou continuar gritando sem voz…

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui. E se alguém acha que é muita pretensão misturar “pessoas comuns” com “gênios canônicos”, eu, de coração, quero que se foda.

Compuseram o Ser Inexistente nesta primeira entrevista: Clarice Lispector, Manoel de Barros, Jorge Luis Borges, Franz Kafka, Domingos Oliveira, Edward Bond, Goethe, Antonio Maria, Carlos Drummond de Andrade, Alexandre Graham Bell, T.S. Eliot, Cesare Pavese, Rainer Maria Rilke, Paulo Roberto Pires, Malcom X, George Bernard Shaw, Mark W. Baker, André Toso, Camila Mamede, Lucas Nobile, Fábio Vanzo (http://avozdomorto.blogspot.com), Paulo Leminski, Nelson Rodrigues, João Pereira Coutinho, Tata Aeroplano e Rubem Alves.

Agradecimentos: Renato Rocha pela foto e Alessandro Ziegler pela edição da imagem

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses