Roger pereceu.

Não, não, ele morreu mesmo. Perecer é uma incorreção. Teria perecido se não fosse o acaso o responsável pela sua morte, mas sim uma cirrose qualquer. Na sexta-feira passada, Roger morreu porque o avião pequeninho que o transportava na companhia de outras 13 pessoas caiu. A explosão da queda matou o empresário, a esposa, quatro crianças e outros pais e filhos da mesma rica família. A algumas centenas de metros de um excerto do paraíso, em Trancoso, na Bahia.
A caixa-preta já está em estudo nesse instante. Já se sabe que o piloto tinha muita experiência, nenhum erro ocorreu na torre de controle, mas já se aventa a possibilidade de uma falha na iluminação não sei de que etc – variáveis de que todo mundo sempre ouve falar preliminarmente depois de um acidente aéreo, seguidas de nuances que não dominamos e adoramos especular a respeito.
Nosso escrutínio sobre os fatos que circundam essas tragédias é sempre impiedoso, porque dar uma mancada em um avião é falta punida com morte. Os responsáveis pela condução e tráfego aéreo são automaticamente execrados, sem chance à absolvição. E esse legado fica pros familiares, que o somam à dor da morte. Sempre se espera uma atitude heróica conjecturada a partir de exceções como a daquele piloto que salvou todo mundo ao pousar na água nos Estados Unidos.
Há sempre outros contornos casuais que me intrigam mais do que a racionalidade da investigação ou demonstrações de bravura.

Roger estava casado pela segunda vez. A primeira esposa morreu no acidente com o Fokker 100 da TAM, em 1996.

Esse é o tipo da verdade de que a mentira se utiliza quando quer se converter.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses e gosta de se impressionar com coincidências.