O Ser Inexistente andava meio sumido, até que por acaso o encontrei em um bar de esquina na Rua Augusta semana passada. Percebi que ele estava completamente alterado logo de cara. Parecia ainda mais deprimido e decadente do que em nosso último encontro. Na verdade, era completamente diferente daquele ser inexistente que encontrei no Rio de Janeiro no último mês de março. Para minha surpresa, ele não se lembrava de mim, nem de nossa primeira entrevista e do nosso encontro casual na Itália. Não se lembrava de ter ligado para meu colega de blog Lucas Nobile reclamando que nossa primeira entrevista fora inventada. No início fiquei triste ao perceber suas condições, temi por sua desistência da inexistência, mas logo percebi que na verdade ele nunca estivera tão apaixonado pela vida. Mal humorado, mas com os olhos brilhantes, conversou empolgadamente comigo durante algumas horas. Sua única exigência dessa vez foi não ser fotografado. “Não estou com trajes apropriados para sair em fotos hoje”, disse. Eis mais uma entrevista exclusiva para o Sete Doses com o maior especialista sobre o nada que não existiu.

Para ler a primeira entrevista do Ser Inexistente CLIQUE AQUI

Para ler a aparição dele na coluna de sexta-feira CLIQUE AQUI

Para entrar na comunidade do Sete Doses no Orkut CLIQUE AQUI

Minha impressão é que o senhor está embriagado…

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirmos o fardo horrível do tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que nos embriaguemos sem descanso. Com quê? Com álcool, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se. E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com álcool, poesia ou virtude, a escolher. Eu priorizo o álcool e o cigarro.

O senhor sabe que isso pode lhe matar?

Garoto, a vida vai te matar. Aqui temos uma garrafa de uísque, dois copos e um cinzeiro. Você toma uísque? Vamos nos embriagar?

Vou te acompanhar… Essa sua intensidade e voracidade de engolir a vida… Sua primeira resposta me parece quase um poema. As pessoas se assustam com isso, não é?

Não me importa. O que importa é que só acredito nessa loucura. A intensidade faz o homem, a indiferença o dilacera. Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões (levanta-se da cadeira), mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso (torna a se sentar). Pra mim, são essas pessoas que enxergam a beleza…

E qual a importância dessa beleza?

Nossa! Puta merda! Que pergunta mais estúpida! Que saudade dos jornalistas de verdade! Mas vamos lá, garoto. Eu confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

E como fazer para enxergar essa tal beleza?

Garoto, essas merdas não têm receitas prontas. Que mania! Vamos dizer que a vida é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito para fazer disso um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata. O homem inconscientemente compõe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero.

Mas seu vazio com a vida é óbvio… Desculpe, mas o senhor não é feliz nem alegre…

Tenho preguiça de gente feliz. A falsidade me deprime. Você não entende? A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida.  Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas, quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar.  Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade…

O que mais aborrece o senhor nos dias de hoje?

O fato de as pessoas estarem ficando cada vez mais burras. Sabe, temos toda essa tecnologia e os computadores se tornaram máquinas de masturbação. A Internet era para nos libertar, democratizar, mas só deu acesso 24 horas à pornografia infantil. As pessoas não escrevem mais, fazem blogs. Em vez de conversar, teclam. Sem pontuação, sem gramática. Parece-me um monte de gente burra que acha que se comunica com mais um monte de burros em uma língua que parece a das cavernas.

Mas o senhor sabe que essa entrevista é para um blog, não é?

Não, nem sabia. Provavelmente é um blog de merda…

Não é bem assim…

Ah, outra coisa que me irrita é que o mundo está ficando cada vez mais chato. Você não pode mais beber, não pode mais fumar, não pode mais fazer porra nenhuma. Não posso nem criticar a porcaria do seu blog. Daqui a pouco vão proibir e fiscalizar o sexo sem camisinha. Que puta mundo chato. Vi na revista Rolling Stone um anúncio a favor da lei antifumo. Que porra é essa? Rock e cigarro são inseparáveis. Como podem fazer isso? Até a Rolling Stone está chata e chapa branca. Aí tem aquelas mulheres que só comem coisas light, moram em academias, não bebem, não fumam, vivem com um sorriso postiço e no fim de semana trepam com o melhor amigo do marido. O mundo está cada vez mais parecido com um conto rodriguiano, tudo tem que ser feito por baixo dos panos: é o mundo photoshopado. O mal do século XX foi a solidão, o mal do século XXI, além da solidão, é a hipocrisia mascarada por uma pretensa modernidade. Estamos fodidos! Nossa, ainda tem outra coisa: esse papo de sustentabilidade e proteção à natureza. Que merda! O próprio discurso está errado. “Vamos salvar a natureza!”. Outra hipocrisia. Salvar a natureza é o caralho, queremos salvar nossa espécie, nossa pele. Será que o homem não percebeu ainda que ele não tem poderes sobre a natureza? Que ele é só uma pequena parte dela? A natureza quer que a gente se foda. Daqui milhares de anos, se o ser humano não existir mais, a natureza criará outro tipo de vida. A natureza se adapta e passa por cima de tudo. A natureza não precisa ser salva, somos nós que precisamos. Ambientalistas deveriam ser chamados de humanistas. Preservar a natureza é o básico para sobrevivermos, é só isso. A natureza vai continuar se adaptando de qualquer maneira. Percebe? O discurso já é errado, imagina a ação. Estamos realmente fodidos!

O senhor já disse tudo o que o aborrece. Vamos deixar isso mais leve: o que acha ser a coisa mais importante do mundo?

A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo. O amor ao outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo. Mas esse é um tipo de amor que não estamos nem perto de alcançar.

Achei isso meio incompatível com a sua personalidade inexistente…

Foda-se.

Você disse que detesta a felicidade falsificada. Concordo com isso, a maioria das pessoas empolgadas e felizes que eu conheço, no fundo, não passam de seres patéticos e tristes… Mas a felicidade é impossível?

Acho que a felicidade só pode ser conquistada depois de se passar por momentos de muita dor. O homem mais feliz que já vi foi um jardineiro. Sentei-me em um banco e comecei a observá-lo. Ele, indiferente, aparava a grama do jardim. Ele, sim, sabia viver. Nenhuma pressa, nenhuma aflição: obedecia ao ritmo que lhe era imposto, harmonizava-se à ordem das coisas ao redor. Era como se eu, excedendo a mim mesmo, num movimento brusco, saltasse fora da engrenagem e, desgovernado, pudesse ver de longe o mundo pacífico e feliz de que não sabia participar.

Li que alguns jovens criaram um grupo para seguir os seus pensamentos. O senhor está virando uma espécie de messias para eles… Eles até usam frases do senhor em manifestações, passeatas e greves…

Quem for meu discípulo, que não me siga. Sigam seus caminhos, caminhos de cada um. Quando nos perdemos uns dos outros, aí sim, estaremos juntos. Ninguém tem obrigações ou deveres com o grupo. Nem eu nem você. O grupo é o caminho pelo qual um homem tem que passar para individualizar-se. E quando sai do outro lado, quer queira ou não queira, ele é o líder do seu próprio grupo. Gosto de andar em dupla, no máximo em trio.

Eu mesmo às vezes tenho vontade de ser um completo anarquista e construir novas possibilidades. Aí penso: merda, não dá!

Garoto, eu acho que você está certo. O anarquista que há em mim se junta com o ingênuo que há em você e propõe: “vamos fazer uma república utópica?”. O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante. E assim o é.

Mas o senhor sempre foi um fervoroso defensor da liberdade. Como conquistá-la sem ação? Esses jovens acreditam e saem às ruas. É tão inútil assim?

Liberdade é ação, é coisa encarnada, inserida no real com objetivo de transformá-lo, modelando-o com o tempo. Não é do dia pra noite. São necessários séculos e séculos de desenvolvimento humano. Não há liberdade abstrata, nobre princípio apenas retórico, a ser festejado e exaltado em manifestações. A liberdade é centro da condição humana. A liberdade deve ser tão natural quanto o ato de cagar ou mijar. Ela é individual. Quando você faz uma manifestação, não está sendo livre, está reclamando de algo que provavelmente não tem relação nenhuma com liberdade, algo do seu interesse íntimo. Você precisa se conscientizar que o ser humano é fundamentalmente egoísta: se uma pessoa luta por uma causa é pelo fato disso fazer bem para o ego dela. Por mais sincero que pareça, a coisa por trás é sempre sobre a porra dos nossos egos destroçados. Aí o cara faz uma manifestação, vira show, sai na televisão e fica bem longe da liberdade… Ele nem percebe, coitado, mas só está anestesiando uma dor própria com aquele ato. Na verdade, ele só está entrando naquele mecanismo, ele é uma peça, uma parte que faz aquele absurdo funcionar. A liberdade, repito, só pode ser conquistada individualmente. Se todos se sentirem livres interiormente, a sociedade se tornará de fato livre. Sem isso nada adianta, é só paliativo. O problema maior também é que não há nada que o homem deseje mais do que a liberdade, nem nada que lhe seja tão doloroso…

Revolução individual… Isso é utopia…

E o que não é? Eu nem sequer existo.

O senhor é maluco: conseguimos muitas coisas com pessoas que lutaram a vida inteira pela liberdade: Harvey Milk, Martin Luther King, a Revolução Francesa, as mulheres que queimaram o sutiã. Se não fosse por isso viveríamos até hoje no sistema patriarcal, no sistema de castas…

O que você tem contra as castas? Isso é cultural, seu preconceituoso! Estou com preguiça de falar disso… Que porre! Você às vezes é muito chato.

Para o senhor, como pode ser contada a vida de um homem?

Através de momentos que não significam nada pra ninguém e que, para aquele homem, resumiram o universo. A qualidade de uma vida talvez possa ser medida pela quantidade de momentos assim que um homem guarda na frágil memória.

Vou me reservar a fazer uma pergunta pessoal. Quais as dicas que o senhor pode oferecer para que eu e meus colegas de blog nos tornemos bons jornalistas?

Hoje, uma redação é essa massa de computadores e redatores. Ficam batendo o teclado no meio daquele barulho, daquela feira da fruta, daquele pessoal do departamento comercial saindo e entrando. De vez em quando alguém conta uma piada e, logo em seguida, recomeça o barulho. Ninguém pensa. Por isso, jornalista bom é jornalista tuberculoso, bêbado e louco. Jornalista que presta mesmo não passa dos 50 anos. É muita verdade para aguentar. E se o jornalista morrer de ataque cardíaco melhor: só morre do coração quem o tem. O jornalista ser infeliz e fodido é um atestado de caráter! Mas lembre-se de sempre utilizar o humor e a ironia: as pessoas graves, sérias, compostas, morrem ainda em vida, e se tornam o busto de si mesmas. Ah, e acabem com o tal do blog de merda de vocês e leiam os clássicos… O André Roston foi muito feliz no post dele da última segunda-feira…

Ah, quer dizer então que o senhor lê o blog?

Leio porra nenhuma… Esqueceu que eu não existo, imbecil?!

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta segunda entrevista: Charles Baudelaire, Ana Luiza Ponciano, Gabriel Kwak, Rubem Alves, Hank Moody, André Toso, Jack Keroauc, Milan Kundera, Fernando Sabino, Domingos Oliveira, Fiodor Dostoievski, Nelson Rodrigues, Hélio Pelegrino, Marcelo Tas, Alex Polari, Helder Júnior, Cauê Vizzaccaro, Maria Rita Kehl, Friedrich Nietzsche

André Toso escreve para os Sete Doses aos domingos