Especial 5 de 7

a. Inéditas da Exposição no Otto Bistrot:  Agora os sonhos já não morrem mais, Pequenas memórias

marimbondo

b. Dedicatória da exposição (carta sem revisões):

“Lá, você saída de um dos banheiros do corredor em t. Vestia um pulôver vermelho com gola alta (como aquele que você tinha fora do sonho, cheio de ondas pontudas, azul; lá de 2002), e óculos escuros bem arredondados. Não tanto. Eu vestia um boné largo que cobria quase todo o cabelo, e estava de barba, misturado. A camisa vermelha como a sua lã – aquela xadrez que chegou depois de você decidir devolver, através da minha irmã, o filme que eu tinha te emprestado para que tivesse de me ver mais uma vez. É sério dizer que essa minha camisa e você nunca se conheceram.

O banheiro era da minha casa em Boituva, e realmente não é de se saber o que você fazia ali. Mas na hora não me foi tanta surpresa assim, pois tinha sido avisado que você voltara recente da Europa. De Paris para Boituva. Da caixa no maleiro para um sonho triste desses de começar a semana. E você só me reconhecia quando eu tirava o boné, e te dizia quem era eu. “Oi” as vezes quer dizer quem é você. Abria um sorriso, porque você sempre abria o mesmo sorriso. Mas não me abraçava senão depois, quando eu abrira os braços para seqüestrar o seu corpo algum tempo. Você, na sua educação, se deixaria então sequestrar – mas com aqueles horríveis tapinhas nas costas, que (também é preciso dizer) são como fingir um orgasmo.

Saía depois, andando com os pés um pouco separados, como você fazia. E, magra, sempre magra, eu podia reconhecer em você o formato nem tão esguio das costas. Os cabelos loiros assombrados pelo corredor de ladrilhos frios. As mãos e as unhas nada postiças. A sua boca aberta, respirando, o corpo furtivamente se inclinando para frente. E saía pela porta que já não poderia ver dali do corredor, mas via como se estivesse na sala da lareira – descia o degrauzinho para a varanda, onde estava de volta outra vida morta minha, ou só aquela árvore, aquele pinheiro enorme e cheio de cascas soltas que mamãe mandou cortar em um Natal dos anos noventa, porque achava que aquilo era planta de cemitério. Quando ela dizia daquele pinheiro, eu imaginava um tatu canastra plantado – porque este animal é quem cava e devora os cadáveres. E lá estava o imenso tatu, com o rabo transformado em raiz e as garras imensas uivando com o vento. Ele olhava manso para os cabelos loiros dela, desassombrados pelo sol. E ela andava em direção à vila nova Boituvinha, a cidade que está nascendo do outro lado da minha cerca, e que não existia ainda quando ela ainda. Não sei para que iria para a vila nova Boituvinha, mas seria preciso dizer que no verão, quando vinham as enchentes, as casas de tijolo vazado se tornavam submersas, com aquele novo tatu que vinha do rio, alagando tudo. Desenterrava, de baixo dos telhados, aquela gente toda que nem cartas podia receber do mundo dos vivos, de lá de onde os loteamentos eram oficializados pela prefeitura.

Da minha varanda, enfiando a cara entre os braços de uma samambaia, gritei pra que ela soubesse que, passando a cerca, estava Atlântida. Ela viraria, rindo, como se fosse ontem, como se fosse 2002 e gritaria de volta que o tatu que subia e desenterrava as pessoas dos seus telhados não era o rio Sorocaba, mas exatamente o oceano Atlântico. Que ela sabia. E passaria a cerca da mesma forma. Eu gritaria por quê? Pois tinha certeza que ela não tinha entendido que aquela era a cidade secreta, escondida, que começava a nascer sempre na primavera, para voltar a ser só lembrança e doer e doer no verão. Mas eu que não entendera nada. Ela pulava a cerca, para o nosso tatu Atlântico. Que estava seco, agora, verdade. E só daí entendi, que era como atravessar o deserto, como atravessar o deserto enquanto o mar tocaiava as nossas lembranças que adormeciam por cada vez mais tempo com o passar dos anos. Ela atravessaria esse deserto imenso que ligava meu sítio à Europa, onde ela de vez em quando deveria me encontrar também, saído de um banheiro ou de uma fotografia.

(sonho triste ou acho que você vai continuar sendo a minha única lembrança inédita)

Última carta

Dia 31 de Agosto de 2009

c. “Primeiros Desenhos (2000/2003)”.

Caderno 2

(Retrato em caderno e bic, Janeiro de 2000, Tio Amilton)

Yuri Machado publica tiras no Sete Doses aos Domingos.