Se lá pelo terceiro ou quarto dia, a equação de Jericoacoara (muito vento + muita água x variações da maré = lagoas naturais que surgem e somem em poucas horas) te cansar, não se preocupe. Existem pelo menos quatro destinos complementares que enriquecem muito a experiência. O primeiro, mais óbvio e mais próximo deles é a caminhada para a Pedra Furada. Para a tristeza de Jardel (o guia gago eloquente, lembra dele?), não é necessário contratar ninguém para chegar ao cartão postal. Basta escolher entre o caminho pelo Saara ou ao próprio nível do mar. O primeiro é mais comprido, sai pelo alto da vila, atravessa as dunas e mata animais com problemas de equilíbrio; leve aquela tradicional sombrinha de praia mofada no armário. Já no segundo se vai beirando o mar e só deve ser feito na maré baixa, sob pena de não se conseguir completar o trajeto com o benefício dos pés molhados. Ao completar duas horas de caminhada, seu chinelo já terá estourado e você provavelmente estará revezando os doloridos pés em cima das rochas. Nem terá notado que, no caminho, existem formações rochosas muito interessantes, que escondem grutas e morcegos. E são enormes, como a própria pedra que dá nome ao passeio. Dizem que debaixo do arco que se formou pela insistência das ondas, vive uma princesa em um reino secreto e maravilhoso. Mesmo sem os trajes adequados, tentei me converter em príncipe para ingressar nos encantos do subterrâneo, mas a concorrência é grande e eu fiquei para trás, comido por um dragão imaginário.

Volte para Jeri depois de um dia inteiro de caminhada (vá antes das 10, volte por volta das 3) e se prepare para mais um poente inesquecível. Se estiver disposto a encarar uma festa local, vá jantar e durma um pouco para se refazer da caminhada. As opções são poucas, e boas. Ou é dia de forró ou de Mama África, bar homônimo daquele situado em Cusco (Peru), mas com menor concentração de gringos por metro quadrado. Ambos começam lá para as duas da manhã, e o melhor a fazer é tomar um sorvete de tamarindo na sorveteria à beira da praia, na rua principal. Com a garganta gelada, promova um choque térmico com um capeta bem feito nas barraquinhas. Aí pronto, meu filho, vá deixar de ser gauche na vida.

Os outros destinos em Jeri exigem os préstimos de um bugueiro ou de uma agência de viagens. Existe uma cooperativa de bugueiros muito confiável, com o preço tabelado e a garantia da experiência. Os mesmos caminhos que o bugue faz são passíveis de se percorrer com um quadriciclo pilotável, com a diferença de bons reais a mais e da sensação de assumir um pouco seu próprio destino. No caso dos veículos coletivos, você os contata, eles completam o carro com a quantidade necessária de pessoas e seguem a varar as dunas para te deleitar com as lagoas de vários nomes, formatos e matizes.

Jijoca abriga esses pequenos oásis, normalmente associados à Jericoacoara pelos pôsteres das agências de viagens. São dois trajetos principais: um deles segue pelas dunas ao sul da praia e atravessa diversas pequenas lagoas de água doce e límpida, que culminam na Lagoa do Paraíso; o outro ruma para o oeste, atravessa manguezais ativos com caranguejos e cavalos marinhos e desemboca na lagoa da comunidade de Tatajuba, no caminho para o derradeiro município cearense, Camocim. Tanto em um como em outro, redes de bilro te esperam sobre a água, na prainha doce, onde um estalar de dedos e uma carteira razoavelmente recheada podem lhe trazer um pargo assado na brasa, uma porção de tiras de robalo e uma caipirinha de umbu e cajá.

Na Lagoa da Torta, em Tatajuba, o cardápio dispensa as folhas de papel: o garçom traz as opções para tomarem sombra no seu quiosque. Escolha entre lagostas, camarões, ciobas, pargos, pescadas e outras opções aquáticas. Se o seu paladar não tolera frutos do mar, leve um bauru ou vá para Minas Gerais. Enquanto a comida não chega, decida se você vai se estender na rede, sentar-se à sombra da palha da sua mesa, atenuar o calor na água ou xingar um windsurfista italiano que ultrapasse o limite das boias e venha atrapalhar seu sossego. Lá existe uma escola da modalidade, que encontrou nos lagos doces a melhor estrutura para treinar quem pretende desafiar o mar algum tempo depois. O maior desafio que me impus foi decidir ir embora daquele excerto do paraíso. Tive de me render às inconveniências de ser apenas um turista e dei as costas à lagoa, aos peixes e ao italiano. Para minha sorte, a pouco mais de uma hora estava Jeri e sua rotina de fim de tarde. O sol riscando o céu com mil cores, a roda de capoeira se formando, o carroceiro a estourar o milho, as crianças em cambalhotas nas dunas…

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses e só atrasou porque está de volta à amena rotina paulistana