terça-feira, fevereiro 9th, 2010


Para fazer o download clique aqui.

Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

Cabernet sauvignon, a uva.

A resposta é o Chile, é claro. Ambas as bebidas são fermentadas a partir de uvas generosamente fornecidas pelo profícuo Valle Central. O pisco, aguardente de uva verde, é produzido mais em áreas ao norte, geralmente mais quentes, e promove a conexão entre o presente exportador de bebidas e o passado indígena mapuche. Já os vinhos pedem por temperaturas mais amenas, além de grande disponibilidade de água. Tanto em uma como na outra ponta da bússola, o território delineado irregularmente pela Cordilheira dos Andes produziu condições das mais adequadas para fomentar uma das agriculturas mais férteis em todo o mundo. Naturalmente, quando se deu conta disso, o país se tornou uma grande potência no esmagar dos frutos púrpuros e esverdeados.

Ainda assim, tal profissionalização levou tempo. A ascensão da burguesia chilena no século XIX permitiu que vários jovens se deslumbrassem in loco com o requinte dos vinhos franceses, especialmente da região de Bordeaux. Convertidos pela ocasião em futuros empresários do ramo, levaram ao país alguns varietais – vinhos com com pouca ou nenhuma mistura de uvas – dos grandes rótulos da região. A assessoria dos mestres do ramo possibilitou a expansão sem freios da exploração daquela terra para o cultivo das uvas. Os resultados foram crescentes até a implosão civil do país com o golpe de Augusto Pinochet, que desarticulou a indústria, voltada à época para o mercado interno.

A redemocratização do país embutiu reformas liberais que atraíram o investimento internacional, capitalizando novamente empresas do ramo. Com a conjunção de estabilidade econômica, clima favorável e alta tecnologia, o país escalou alguns degraus no contexto produtor internacional e imprimiu uma marca de “bons e baratos” aos vinhos sul-americanos. Um dos principais responsáveis pela explosão do consumo fora das fronteiras chilenas foi Don Melchor Concha y Toro, que legou aos chilenos uma metonímia do vinho que se produz naquele país.

O vale do rio Maipo, onde se situa a fazenda da família Concha y Toro, segue a fertilizar os vinhedos convertidos em atração turística das mais valiosas do Chile. A região onde se situa, na região metropolitana de Santiago, permite uma visita sem maiores dificuldades com o aluguel de um carro na capital. Um metrô seguido de um curto trajeto de táxi também o leva até lá. Por “lá”, entenda-se que existem outros vinhedos tradicionais nos “sideways” das estradas, mas a grande atração é o lugar onde se fazem os tradicionais Marques de Casa Concha e o Casillero del Diablo, posicionado frequentemente entre os 50 melhores do mundo.

O que era para ser apenas uma fazenda remodelada tornou-se uma espécie de parque temático do vinho. Um casario enorme, onde vivia perdulariamente a família, foi convertido em um salão para grandes eventos. Adegas de inspiração medieval abrigam uma profusão de tonéis de carvalho importado, que imprimem as notas amadeiradas e acentuam o sabor dos vinhos. Uma delas carrega um folclore que se tornou um dos rótulos mais conhecidos da vinícola. Preocupado com os constantes furtos dos vinhos de sua reserva, Don Melchor alimentou a lenda de que o diabo a habitava. A história diz que a história colou, com o que aquela adega ficou conhecida como o Casillero del Diablo e hoje é merecedora de um passeio temático com direito a sons guturais e pouca ou quase nenhuma luz.

Como se vê, o marketing também foi bem absorvido pelos chilenos. Da mesma maneira como a Costa Rica faz com seus cafés tipo exportação, o Chile capitaneou uma busca por grandes enólogos e empresários do ramo em todo mundo, que transmitiram grande conhecimento técnico e transformaram a coisa toda em um grande negócio. Puristas ou não, alguns críticos dizem que tamanha evolução impediu a elaboração de vinhos chilenos autóctones.

Se falta personalidade ou não aos vinhos chilenos eu não sei, mas, para quem tinha experimentado, no máximo, um tour pela esforçada produção de vinhos em São Roque (SP), o breve contato com a vinícola temática talhou a lápide do chapinha no cemitério que é meu passado.

Mas uma catuaba para a bagaceira ainda vai bem.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses