Os passos lentos de Jairo atestavam o pesar que a gravidade adquire com o avançar da idade. Como fazia todas as tardes, flanava, cambaleante, pelas ruas arborizadas e movimentadas do Jardim Europa. Foram trinta anos de sua vida trabalhando naquela região e, depois de aposentado, andar por ali era como viver o passado, nublar o futuro e matar o presente. Observava as mansões imponentes e o entrar e sair dos carros importados das garagens. Prostrava-se, principalmente, em frente a uma casa na Rua Atlântica e ali deixava seus pensamentos nostálgicos desenrolarem-se.

Os altos portões brancos do casarão, sempre cerrados com cadeados e correntes grossas, emolduravam um jardim impecável, ornado por bromélias, lírios, cravos, margaridas e flores do campo: todas simetricamente espalhadas por uma área de mais ou menos 60 metros quadrados. Olhava para aquele jardim tão bem aparado e lembrava-se da época em que era ele quem cuidava daquele pequeno paraíso. Ao olhar com mais atenção para aquele mar de flores, observou, maravilhado, um único e solitário botão de rosa vermelha. Em destaque, balançava com o sabor do vento e anunciava a tempestade que se aproximava. Jairo abriu o guarda-chuva, olhou por mais alguns segundos e se dirigiu ao ponto de ônibus. Em pouco tempo, pingos grossos de água começaram a tingir o asfalto.

De volta à sua realidade – uma casa de um quarto na Zona Leste da cidade –, beijou a testa da mulher e ligou a televisão. A vida ociosa desmanchava-lhe o prazer pelas coisas, e o meio da tarde era o horário que mais lhe incomodava. Enquanto todos estavam ocupados com seus compromissos, ele e sua mulher se preocupavam apenas com o horário e o cardápio do jantar. A existência, desde que os filhos debandaram de casa, tornou-se enfadonha e chata. A morte, cada vez mais próxima, parecia o único objetivo concreto. Mas um simples comentário de sua mulher lhe despertou uma ideia:

- No mês que vem fazemos 45 anos de casados. Sabia?

Fingindo não prestar muita atenção para o que a mulher dizia, meneou com a cabeça em sinal de positivo e fingiu estar entretido com a televisão. Mas seus pensamentos iam longe. De súbito, lhe veio a ideia de presentear a mulher com a flor que ele vira aquela tarde na mansão da Rua Atlântica. Era o presente perfeito para fazer sua amada sorrir novamente. Uma flor como aquela iluminaria novamente seu lar e daria novo fôlego para os próximos últimos anos de matrimônio. A esperança encheu-lhe o peito de coragem.

No dia seguinte, ao conversar com o motorista de táxi que trabalhava em frente à sua casa – um velho conhecido que lhe prestava uma amizade quase terapêutica -, Jairo contou dos planos de roubar a “Flor dos Jardins”, como a apelidou carinhosamente.

- Que é isso, rapaz, virou moleque de novo? Vai roubar flor pra dar pra namorada? Bate na porta e pede a flor pro seus antigos patrões. Você mesmo diz que eles sempre foram gente boa.

- Você não entende – disse Jairo, saindo sem nem se despedir do amigo.

Os planos de Jairo eram bem claros. Na calada da noite, pularia o portão da mansão, arrancaria a rosa que se destacava no meio do jardim e iria embora. Entregaria a flor para a mulher no dia do aniversário de casamento com uma fita branca enrolada no cabo. Ele tinha um mês para arquitetar toda a operação, que apesar de simples era considerada por ele de alto risco. Comprou um caderno na papelaria e escreveu com letras vacilantes na capa vermelha: “PROJETO FLOR DOS JARDINS”. Descreveu ali os propósitos de sua missão, os motivos de se arriscar em tal empreitada e aproveitou para declarar seu amor pela esposa com um pequeno poema:

A Missão:

Romanticamente, como os bons e velhos amantes faziam, irei usurpar a rosa vermelha mais linda que já vi para presentear minha esposa. Farei isso um dia antes de nosso aniversário de matrimônio. Após Sofia dormir, sairei de casa portando dinheiro para o táxi, este caderninho e meu documento de identidade. Pularei o portão, arrancarei a flor e retornarei para minha casa. Acordarei Sofia, pois presumo que já terá passado de meia-noite, e entregarei a flor para ela com uma fita branca enrolada na base da copa com a seguinte montagem do texto “Para Uma Menina com uma Flor”, do poeta brasileiro Vinicius de Moraes:

“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”

Os Motivos

Provarei meu amor por Sofia invadindo humildemente uma mansão de ricos para demonstrar a ela que o amor pode tudo. Vou provar a ela que o amor resiste ao tempo e a todos os descaminhos da vida. Não é pelo fato de viver apenas com uma aposentadoria tão pequena que não tenho o direito de entrar na mansão que um dia trabalhei e dar à minha esposa a flor mais linda da cidade. Não quero pedir mais nada a meus antigos patrões, não dependo deles, sou um homem livre que pode conseguir as coisas pelos próprios esforços. E vou conseguir aquela rosa. Sou um homem pobre, mas conheço de flores e sei que aquela é especial. Darei a rosa à minha menina e nossa relação voltará a ter fulgor como outrora. Creio nisso como creio no bom Deus.

Pequeno poema à Sofia

“Encontra-me no Paraíso, Oh Sofia

Seus cabelos me inebriam

Sua pele me fascina

Todos os dias eu insisto, Oh Sofia

Sua beleza é um desatino

E essa rosa eu lhe dedico”

Obs: Só entregarei o poema à Sofia se tiver coragem. Ainda não decidi.

Os escritos no caderninho passaram a ser rotina na vida de Jairo. Passava horas construindo frases e poemas de amor para Sofia, embrenhando-se em parques da cidade para ganhar inspiração da natureza. Visitava todos os dias a mansão do Jardim Europa, observando a rosa de longe, fascinado. Escrevia no caderninho tudo que sentia durante aqueles encontros.

Na noite do roubo, Jairo estava apreensivo. Após a mulher pegar no sono, vestiu um sobretudo negro da época de juventude, colocou um chapéu na cabeça e um cachecol pendurado no pescoço. Foi na ponta dos pés até o armário do quarto, pegou as poucas economias para pagar o táxi, colocou o caderninho de capa vermelha debaixo do braço e saiu.

Nervoso, pediu para o taxista lhe deixar na esquina da Rua Groelândia com a Colômbia, uma quadra antes da Atlântica. Com passos lentos e decididos, dobrou a esquina e chegou à porta da mansão. Tranquilamente, colocou o caderninho no bolso, observou a escuridão silenciosa do jardim e sem pensar muito pulou o portão com toda a dificuldade que sua idade avançada requeria. Devagar, com pés de algodão, caminhou pelo trilho de concreto que circundava as flores. Só ouvia o som do vento frio e forte que soprava. Observou a flor, que, solitária, pendia de um lado para o outro ao sabor do vento. Estava derramada em escuridão. Com cuidado, embrenhou-se no meio das flores e arrancou o cabo da rosa com um puxão seco e certeiro. Parou por um instante, hipnotizado por sua beleza. A olhava, enternecido, como um jovem que observa pela primeira vez a nudez muda de uma mulher. Minutos se passaram e Jairo prosseguia estancado feito uma estátua no centro do jardim, olhos úmidos e vidrados. Vozes surgiram de dentro da casa e se somaram a latidos de cães. Apesar das luzes que se acenderam no interior da mansão, o breu ainda dificultava a visão e o olfato se tornava o sentido mais aguçado, atingido em cheio pelo perfume das flores. Passos apressados chocavam-se contra a grama úmida pelo orvalho da noite. Dois estampidos, sobrepondo-se um sobre o outro, ressoaram no ar. O segurança, ofegante, observou um vulto se inclinando em direção ao colchão de flores que os cercavam. O vento, furioso, folheava enlouquecidamente as páginas de um caderninho vermelho caído ao lado do suposto ladrão. No ar, pétalas de rosa levantavam vôo e bailavam desesperadas pelos arredores do jardim. A lua cheia – romântica e melancólica – iluminava tudo.

Título em homenagem à canção “O Velho e a Flor”, de Vinicius de Moraes, Toquinho e Bacalov. A música e a letra:


Por céus e mares eu andei

Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber o que é o amor

Ninguém sabia me dizer

E eu já queria até morrer

Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho

É o espinho que não se vê em cada flor

É a vida quando

Chega sangrando

Aberta em pétalas de amor

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

Em1963, ano em que os Beatles começaram a fazer sucesso, o amor ainda era um tabu. O sexo era feito com luzes apagadas, embaixo dos lençóis e com o papel de ser um meio para a procriação. A busca do jovem da época era pela árdua conquista da primeira noite, batalhada pelo namoro nos carros, nas praias e nos parques, longe da presença dos adultos. Era tudo muito escondido. Para o pesquisador Ricardo Pugialli, a música do grupo nesta fase traduz muito bem esse sonho pela noite perfeita. “Em canções como ‘I Want to Hold Your Hand’, ‘P.S. I Love You’, ‘All My Loving’, ‘She Loves You’ fica clara a afirmação do amor juvenil, puro, com arranjos simples e diretos, melodias doces e crescentes, que fazem o coração bater mais rápido”, explica.

Pugialli acredita que a banda conseguiu caminhar sempre lado a lado com as aspirações e o ideal de amor da juventude na década de 1960. Depois de estourarem no mundo, John e Paul criaram melodias e letras como “No Reply”, “I Need You”, “You’ve Got To Hide Your Love Away”, “The Night Before”, que traduzem um amor mais profundo e maduro, com espaço para dúvidas, problemas e inevitáveis separações. “Os arranjos começam a se sofisticar, as composições fazem jogos de palavras e situações, eles começam a se distanciar do ‘iê-iê-iê’”, opina.

As mudanças mais profundas, entretanto, ocorrem na segunda metade da década. Os Beatles acompanhavam – muitas vezes até se antecipavam – aos efeitos do surgimento da pílula anticoncepcional, ao amor livre e à liberdade. “Suas canções cresceram junto com a geração”, observa o pesquisador. É neste momento que as letras abordam amores clandestinos (“Norwegian Wood”), o amor como solução (“All You Need Is Love”), o amor como palavra (“The Word”) e a fuga de casa (“She’s Leaving Home”). “A criatividade da banda estava no auge, com orquestras, instrumentos exóticos, andamentos compostos e arranjos sofisticados: era a materialização musical do que a juventude vivia no momento”, analisa.

De acordo com Pugialli, no final da década, quando a própria banda estava próxima da separação, percebe-se uma realidade ainda mais madura, com aspirações de novos amores e com dúvidas sobre o futuro. Isso é percebido, principalmente, nas letras de canções como “Something”, “Hey Jude”, “Oh! Darling”, “Don’t Let me Down” e “I Will”. “O grupo retornou aos arranjos mais básicos, mas eles ainda eram elaborados e ousados; apenas se apresentavam mais enxutos. Um grupo mais maduro, como toda a sua geração”.Ao acompanhar, sentir e interpretar as aspirações amorosas daquela juventude dos anos 1960, os Beatles conseguiram compor um quadro completo do verbo amar. Criaram uma espécie de mapa que guiaria todas as gerações posteriores ao caminho, nem sempre fácil e seguro, desse sentimento tão complexo. “Os Beatles são o amor em sua essência”, finaliza Pugialli.

Obs.: Esse texto é baseado na entrevista que realizei com o pesquisador Ricardo Pugialli para a edição especial da Bravo! sobre os Beatles publicada em outubro de 2009. Não utilizei parte da entrevista e resolvi montar um texto para o Sete Doses.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Não era a primeira vez que Cido esquecia-se de jantar naquela semana. Não era intencional, tampouco um desleixo qualquer. Sentado na cama, imerso em esboços de partituras, por dias acomodava o cavaquinho no colo em busca de sambas que lhe soassem – não apenas a ele, mas ao ouvido dos outros – honestos.

Quando se dava conta, o sol rasgava a cortina e as badaladas do relógio da sala anunciavam a hora de ir trabalhar, mas ele ignorava, como pirralho que corre atrás da bola e fecha o ouvido para os berros da convocação maternal para o almoço ou para o banho. Como um mundo que teima em gritar a um surdo que, de costas, perde-se na ausência de sua audição.

Quando Cido deu por si constatou que as semanas já não eram mais semanas. Eram meses. O motivo de suas inquietações e siricuticos era justamente os sambas que compunha – justo a música, que tinha como finalidade primeira encantá-lo e acarinhá-lo o peito.

Não que Cido tivesse dificuldades em compor. Fazia versos e melodias tão emotivos a ponto de derreter em afabilidade o peludo e petrificado coração de Lúcifer. Sabia como ninguém escrever sobre o tal do amor, sem pieguices e arroubos sentimentaloides juvenis.

Era invejado por todos os compositores da comunidade. Por onde andava, mesmo sendo décadas mais novo, recebia pedidos de bênção dos sambistas mais respeitados da Velha Guarda do morro de Gonçalo Filho. O curioso é que não entrava nas cabeças brancas de Antonico, Carreteiro, Mané Meio Copo, Bentão e tantas outras feras como uma pessoa podia descrever tão bem um sentimento sem nunca tê-lo vivido.

Sim, fazia-se tal julgamento pelo fato de Cido nunca ter sido visto acompanhado, fosse por mulher, por homem, por criança ou por animais. Não tinha parentes, nem cônjuges, nem amantes, nem um fiel escudeiro de estimação. Logo, como poderia amar? E como era capaz de escrever sobre tal verbo? Como ousava? Ou melhor, como conseguia tão bem? Eram as perguntas mais frequentes no “FAQ” popular e rapsódico da comunidade.

Aos 48 anos, Cido já havia cedido uma infinidade de sambas-enredo para representar a escola na avenida. E mesmo quando exigia-se um tema sobre algum fato histórico ou alguma personalidade marcante, o cavaquinista e compositor dava um jeito de encaixar o amor nos enredos. Era natural, só sabia “trabalhar” daquela maneira.

Porém, como tudo na vida, o sobrar de um é o faltar de outro. As lacunas e incongruências humanas esticam as pernas na cama da cobiça.

Os bastiões da Velha Guarda serviam-se da matéria-prima do adultério, das desilusões amorosas, das bebedeiras no bar, dos cantos tristes dos pássaros, das auroras, do abandono de amigos, do azar no jogo, do rabo-de-saia das cabrochas, das rinhas de galo, da paisagem ao mesmo tempo bela e hostil da cidade… No fim das contas, compunham com base em experiências passadas, em imagens apreendidas por suas vistas. Faziam versos infantis, quase banais, mas, no fundo, donos de uma beleza inegavelmente entorpecedora.

Compunham como malandros. Afinal, eram nada mais do que aquilo. E sonhavam em compor como Cido, que almejava escrever malandreadamente como aqueles senhores de cabeça-de-algodão. No fundo, isso seria completamente possível um dia, quem sabe. Os velhinhos jamais escreveriam como Cido, mas ele, mesmo sem levar a vida boêmia que seus mestres levavam, tinha a receita pronta. Quando quisesse, era só seguir o mesmo caminho que percorria para falar sobre o amor.

Tinha ciência de que há coisas que não é preciso vivenciá-las para senti-las. Assim, na penumbra da solidão, Cido se fazia malandro, enchendo até onde podia os pulmões para respirar a pureza do amor.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e reverencia a crooner mais atemporal e longeva da música brasileira, Elza Soares, justamente por ela saber cantar o amor e a malandragem com a mesma genialidade.

 

Café-da-manhã

Queria que você acreditasse no quanto eu te amo. Queria que você soubesse que observo nossa vida através dos seus olhos. Queria que você tivesse a certeza de que aquilo que estamos construindo não é do meu ou do seu jeito: é do nosso jeito. Queria que você percebesse que o “nós” é novo para mim. Queria que você acreditasse que de tudo que aconteceu na minha vida até aqui você é a coisa mais importante. Insiro você na minha vida e quero que você faça o mesmo. 1 + 1 = 2. Somos como duas retas paralelas que se encontram no infinito. A minha vida é a sua. A sua vida é a minha. Somos dois que compõe um só. Daqui para frente, não sou só eu ou só você: somos nós.  E o que eu mais quero agora é saber que você está firme comigo nesta composição do nós. Preciso saber que apesar das dificuldades, das barreiras e das emoções ruins teremos um ao outro formando essa parceria. Quando escrevo sou mais sincero e claro do que quando falo. E eu escrevo com toda a clareza da minha mente: eu te amo e quero construir a nossa vida junto com você. Não tem mais eu. Só nos resta o nós. Tudo isso que estamos vivendo é muito bonito.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e se sente brega e apaixonado

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Poema correspondência para a alegria que chega!

De certa forma, não furo bilhetes
Mas busco entender o que de melhor podemos ser
Busco saber como melhor cultivar o viver

Deixo o amor acontecer e servir sempre da maneira honesta
Deixo o instinto ser minha face de carinho para minha amada
Faço de valor, o querer bem de quem tenho como mulher

Tocarei por noites e dias na tentativa de colher a alegria
Seja em forma de pequenas atitudes ou da sagrada poesia
Seja navegando por conversas e por entendimentos
Quero aprender a te ensinar a unir os sentimentos

Cantarei o grave trombone nos tracejos das canções
Recortarei ideias para lhe surpreender em sorrisos
Que merecem dedicadas homenagens para a eternidade

Ligarei quando voltar um toque que se confunde com meu coração
Badalado pela vontade de sempre estar junto,
Trazido pelo carinho recebido em seu olhar!

Deixo sob a forma de dança e poesia, penerando apenas o que existe de alegria algumas canções de Gainsbourg.



Le Poinçonneur des lilas // O conferidor de bilhetes

(Serge Gainsbourg)

Eu sou o conferidor de bilhetes
que os caras passam e que não olham
Não tem sol debaixo da terra
ô viagem chata
pra matar meu tédio eu carrego no colete
as “Seleções do Reader’s Digest”

E nesse livrinho escreveram
que tem esses caras com vida fácil em Miami
Enquanto eu fico aqui como um bobo
No fundo desse poço
Parece que não tem trabalho ruim no mundo
Eu, eu faço buracos nos bilhetes!

Eu faço buracos, buraquinhos, e mais buraquinhos
Buraquinhos, buraquinhos, sempre os buraquinhos
Buracos na segunda classe
Buracos na primeira classe
Eu faço buracos, buraquinhos, e mais buraquinhos
Buraquinhos, buraquinhos, sempre os buraquinhos!

Eu sou o conferidor de bilhetes
Para ir ao Invalides, baldeação na Opéra
Eu vivo no coração do planeta
Tenho na cabeça
um carnaval de confete
que eu carrego até minha cama
E debaixo deste céu branco
eu só vejo brilhar os sinais de baldeação
Às vezes eu sonho, eu divago
eu vejo as ondas
E lá na bruma no fundo de um porto
eu vejo um barco que veio me procurar

Pra me tirar desse buraco onde eu faço buracos
Buraquinhos, buraquinhos, sempre os buraquinhos
Mas o barco desaparece
e eu vejo que eu saio dos trilhos
E eu fico no meu buraco a fazer buracos
Eu faço buracos, buraquinhos, e mais buraquinhos
Buraquinhos, buraquinhos, sempre os buraquinhos!

Eu sou o conferidor de bilhetes
Arts-et-Métiers, direto pela Levallois
Eu já tô muito de saco cheio desta cloaca
Eu queria viver um pouco a vida
Deixar o capacete lá no vestiário
Um dia virá, eu tenho certeza,
em que eu vou poder sumir pelo campo
Eu vou pôr o pé na estrada
E custe que custe
E se pra mim não der mais tempo
Eu vou me mandar desta pra melhor

Eu faço buracos, buraquinhos, e mais buraquinhos
Buraquinhos, buraquinhos, sempre os buraquinhos!

Tenho bem motivo pra ficar louco
motivo pra pegar um revólver
E me fazer um buraco, um buraquinho, um último buraquinho
E vão me colocar num buracão
Onde eu não vou mais ouvir falar de buracos
Buraquinhos, buraquinhos, buraquinhos!


Fernando Macedo transmite seu amor e seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses.

Tomou consciência de seu infortúnio ao encontrá-la amparada em outros braços. Parou, olhou e suspeitou de que aquele era o momento-chave de uma existência até então insuportável. Extrairia dali as forças para desvanecê-la de seus pensamentos e inundar sua mente com outras definições imagéticas. Olhou mais uma vez, via os braços dele envolver a cintura dela, as mãos dela tocar suavemente os cabelos dele. Observou a cena fixamente, sem sobressaltos, sentindo, pungente, cada traço de sua dor.

Naqueles longos minutos – suficientes até mesmo para tragar pacientemente seu cigarro – passou-lhe pela cabeça todos os erros que tinha cometido quando era ele quem estava naqueles braços. Refletiu e concluiu que se agora ela se contentava com outros braços era pelo fato dos seus não mais a servirem. Pensou que proteção era o único desejo e a única necessidade dela e que ele não soubera como envolvê-la em total e absoluta serenidade. Na cabeça dele, era óbvio, os braços que agora a abraçavam conquistaram o objetivo que ele falhara. Fechou os olhos e se viu mergulhado em cenários negros que comprovavam sua incapacidade de enxergar adiante. Ele era um fraco cujo passado não conseguia apagar. Sabia disso e não se conformava.

Apagou o cigarro, admitiu a derrota, virou-se de costas e abaixou a cabeça. Mas a cena ficara gravada e impregnada em sua íris para sempre. Não importava se de olhos abertos ou fechados, prosseguia enxergando a cena posterior; para sempre, para todo o sempre. Enquanto ainda estivesse respirando, enxergaria aquele abraço, aquelas intimidades, aquele maldito e silencioso beijo. Era como uma película que se repetia eternamente em uma sala de projeção abandonada. Não era uma imagem estática: a cena, sempre a mesma, tinha um movimento cruelmente harmônico. Ele enxergava ali a felicidade plena, sem a possibilidade, no entanto, de participar dela.

A cena se repetia, se repetia, se repetia… Um transe insuportável. Sem descanso, sem piedade. E ela, ela se movimentava cada vez mais graciosa, demonstrava estar cada vez mais feliz e realizada. Demonstrava em seu olhar de contentamento que ele era dispensável, que apenas havia sido um abrigo provisório em um momento oportuno. A cena se movimentava com velocidade cada vez mais indefinida. Uma tranqüilidade caótica que o perturbava por ser bela e surreal. O enquadramento pendulava lentamente, como uma nau que sobe e desce ao ritmo das ondas. As cores derramavam-se conforme o balanço da cena. Nada mais fazia sentido. Ele não a enxergava mais como ela era, só observava manchas multicolores dissolutas que se assemelhavam a um abraço vago, distante, impreciso…

Concentrou-se na imagem como nunca na tentativa de identificar a cena novamente. Percebeu que agora quem a abraçava era ele mesmo. Mas percebeu que, na verdade, não era mais ela quem protagonizava a cena. Percebeu que se tratava de um fantasma, de um vulto indefinido e mortalizado, que sumia a cada frame… E ele abraçava aquela sombra com todas as forças, tentava puxá-la para si e ela escorria-lhe de seus braços como uma tinta que fora jogada a esmo em uma tela em branco. Viu-se sozinho em meio à cena, a tatear o ar. Viu-se sem ter o que fazer com os braços e as mãos. Acendeu um cigarro – a fumaça serpenteava ao ritmo do enquadramento torto e tresloucado da cena – e se viu sozinho em um cenário que já não fazia mais qualquer sentido concreto. Nunca mais conseguiu identificar-se… Dissolveu-se até a última gota de sua existência…

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e quer que todos saibam que ele está voltando hoje da Itália. Ele lamenta ter de retornar à sua vidinha de merda em São Paulo

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A feira do amor, receita do saudável organograma sentimental

Alô freguesia dos apaixonados
Trago a receita do amor,
A verdadeira face e instinto sedutor
Por isso, segredo aos desesperados

Vista-se com o tecido da paixão
Leve nos bolsos as chaves do esquecimento
E abra todo o seu íntimo sentimento
Ao entardecer desse poema-cordão

Pegue uma bacia de calor humano
De todas as horas ao lado da amada

Amarre uma sacola cheia de beijos
Para junto do quilo de carinhos
Rechear essa torta de amassos

Exprema o limão bem expremido,
E faça da uva, um macio segredo aos lábios
Não deixe de cobrir as curvas, pois os montes fazem esquentar o molho

Mexa, mexa, mexa até o tempero escorregar,
E o frio desejo sair de uma calma vontade de gritar!!!

Leve para a balança e veja que ao beijar
Você vai querer essa receita novamente aplicar

Nas noites e dias, na cama!
Me ama, me ama!


Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses