
O dispensário*
O Departamento de Profilaxia da Lepra criou uma legislação específica para a visitação aos asilos em 1939, o que distanciou ainda mais Rosalina da família. Seus filhos estavam proibidos de frequentar o asnatório, assim como todos os menores de 21 anos e quem não fosse parente de internos. A Rodolfo, só permitiam que visse a esposa em um domingo de cada mês e, mesmo assim, ele não fazia uso de todos. Também horas, que determinaram horários para o funcionamento do parlatório, das 9 às 11 horas ou das 13 às 15 horas, que nem sempre coincidiam com os da chegada dos trens às regiões dos leprosários. Com o crescimento da população doente, apenas 50 visitantes de cada vez podiam ficar diante dos muros. Os diretores dos sanatórios ainda possuíam o direito de interditar o local sempre que ocorressem problemas disciplinares.
Rodolfo foi fichado na “seção de contatos” da esposa em 1939. Ganhou uma carteira de identificação com seu nome, foto e as datas de exames semestrais que deveria cumprir caso desejasse retornar ao asilo, onde apresentaria a anotação “em dia” no documento. Além de distanciar ainda mais os internos do restante da sociedade, a medida ajudava o DPL a descobrir novos casos de lepra precocemente. Antes, os prontuários dos pacientes já vinham sendo utilizados com a finalidade de controlar os seus “comunicantes”, denominação que o órgão deu às pessoas com quem eles tivessem mantido contato prolongado. Registravam-se os dados diagnósticos e pessoais do enfermo em sua ficha clínica, mas também se abria um “inquérito epidemiológico”, no qual ele fornecia informações detalhadas sobre seus parentes. Dizia onde encontrá-los, inclusive.
Rodolfo, Nivaldo, Izabel, Augusta e Sebastião, todos comunicantes, deveriam realizar exames regulares em um dispensário, o segundo instrumento do aparelho antileproso montado pelo DPL. Cumpriram a norma por cinco anos após a captura de Rosalina, sob a ameaça de serem caçados. Se não comparecessem no local e dia indicados, arriscavam-se a receber a visita do “fiscal da lepra”, que poderia requerer auxílio à Polícia Civil ou Militar se assim desejasse. Havia sanções menos temidas pelo desacato, como impossibilitar a matrícula das crianças em escolas ou proibir as visitas ao parente preso no leprosário, a exemplo do que passou a ser feito com quem estava registrado na seção de contatos.
As limitações financeiras não permitiram que todos os dispensários tivessem prédios próprios como sede, vontade inicial do DPL. A maioria deles era itinerante, instalada em caráter emergencial nas cidades onde não houvesse aparelho parecido e dividia espaço com outras unidades de saúde. Ocupavam geralmente salas exclusivas, com o título “Serviço Espacial de Lepra” na porta, semelhantes àquela onde Rosalina fora diagnosticada como hanseniana. Em 1936, um ano após a mãe deixar a Seção de Elucidação e Diagnóstico em direção ao Aymorés, um plantonista de dispensário descobriu a doença em Augusta, a terceira filha dos Mercúrio.
Diferentemente do que se cogitava na época, a hanseníase não é hereditária. Ninguém nasce doente porque os pais o são, embora possa ter maior suscetibilidade genética para ser infectado. O contágio é somente inter-humano. Nenhum inseto é transmissor. As condições sanitárias constituem, sim, fator de risco à população, mas porque caracterizam miséria. Acreditava-se também que o clima tropical contribuía para a disseminação do mal, uma vez que se espalhou com facilidade no Brasil e em países africanos. Por isso, os leprosários deveriam ser construídos em regiões altas e secas. Mais um erro: a fria Noruega do doutor Hansen, por exemplo, livrou-se da endemia somente quando se desenvolveu socioeconomicamente.
A transmissão da doença se dá basicamente pelas vias áreas superiores, em virtude da grande quantidade de feridas na mucosa nasal, boca e laringe dos acometidos. Quando falam, eles expelem em torno de 10 mil bacilos de Hansen por minuto. As lesões cutâneas ulceradas também são meios de eliminação de germes, porém não justificavam a queima ou esterelização de tudo o que o doente tocasse. Já se sabe que essas feridas não são suficientes para implicar contaminação, que acontece apenas com exposição constante ao bacilo. “O que importa é que a moléstia se transmite. O como não sabemos. Mas o leproso é, ao menos, um dos depósitos do vírus. Isto está provado. Daí a necessidade de isolá-lo da comunidade”, contrariou o médico Oswaldo Cruz, em entrevista concedida ao jornal O Imparcial, em 1913.
A “filha mais velha da morte”, como o sanitarista se referiu à lepra na ocasião, é uma doença de baixa patogenicidade. Ou seja: a exemplo da tuberculose e da poliomielite, pode se alojar e multiplicar em um grande número de indivíduos, entretanto apenas uma pequena parcela vai adoecer. A proporção está relacionada à qualidade de vida da população, que favorece distúrbios protéico-calóricos quando ruim. Ainda assim, cerca de 80% das pessoas são imunes à hanseníase, segundo estimativa do Ministério da Saúde. Dois dos quatro filhos de Rodolfo e Rosalina estavam entre os 20% sem resistência.
……
Quando o médico do DPL constatou que Augusta havia sido infectada, os Mercúrio já estavam preparados para a perda. Os braços da menina foram tomados por enormes manchas brancas, como acontecera com a mãe. Aos 6 anos, ela foi levada ao Aymorés para fazer companhia para Rosalina. A família ruiu novamente, porém conseguiu superar o segundo trauma mais rapidamente do que o primeiro. Ao menos a filha ficaria sob os cuidados da mãe. E estava em melhor situação, pois desenvolvera a hanseníase tuberculóide.
Nivaldo manteve o bacilo incubado em seu organismo até completar 15 anos. Nessa idade, parecia-se cada vez mais com o pai. Ambos eram altos e magros, com olhos castanho-claros e os cabelos lisos na mesma cor. Depois que começou a sentir fraqueza, perdeu parte da sensibilidade nas mãos. Machucava-se e não percebia, e só era capaz de segurar objetos com muito esforço. O seu caso não foi identificado a tempo por um dispensário, do qual os comunicantes de Rosalina haviam se livrado dois anos antes. O doutor Moacir Porto, o mesmo que tratara sua mãe em Araraquara, confirmou o diagnóstico de hanseníase virchowiana para o garoto. Mas não o delatou. Silenciou sobre o assunto durante dois anos, desrespeitando uma lei estadual de 31 de dezembro de 1929: todo médico que soubesse de um caso de lepra era obrigado a informá-lo imediatamente, por escrito, ao Serviço Oficial; também ficava impedido de atender esse paciente, que passaria ser de competência exclusiva do DPL.
Com a evolução da doença, Rodolfo levou pessoalmente o filho ao Aymorés no dia 28 de maio de 1945. A atitude é compreensível, dada a eficácia da propaganda contra a lepra. Tratava-se de um mal incurável, que deformava, e era somente isso que se sabia com exatidão naquele tempo. Quem o contraísse se sentia mais seguro sendo tratado em um sanatório especializado, ainda que privado de sua liberdade. E, se não fosse para lá espontaneamente, precisaria viver às escondidas para não ser denunciado e internado à força.
Ao contrário da primeira vez que Nivaldo foi a Bauru, ninguém se prontificou a emprestar um carro ao pai e seu filho leproso. A viagem pela ferrovia era mais longa do que a realizada em automóvel; demorava quase seis horas. O garoto não organizou seus pensamentos durante todo aquele tempo, falou pouco e evitou trocar olhares com Rodolfo. Novamente em frente ao primeiro portão do asilo-colônia, que um dia atravessara para visitar Rosalina, ele enfim se pronunciou. Apresentou-se a um funcionário como doente, disse que precisava de tratamento e foi encaminhado para a sala do diretor do Aymorés. O pai permaneceu em frente ao parlatório.
A sentença da internação não tardou.
- Então vou para casa, arrumar as minhas coisas e já voltou – conformou-se Nivaldo.
- Não. Você fica desde já. Sua família, você não vê mais – retrucou o diretor.
Nivaldo retornou ao portal do Aymorés e tentou dar um abraço em Rodolfo, porém nem um aperto de mão seria permitido.
- Mas nunca passei a doença durante dos 17 anos em que vivi com ele e meus irmãos! Vou passar agora, só de apertar a mão? Semana que vem é meu aniversário e quero me despedir do meu pai! – implorou.
A resposta lacônica do guarda sanitário:
- É a lei.
O funcionário apontou para o muro em seguida, onde a direção do asilo pregava algumas de suas regras. Um desses textos era o seguinte:
“Edital de Prohibições:
1º – Receber diretamente qualquer visita, qualquer objeto, fructas etc, sem autorização prévia;
2º – Entregar directamente às visitas qualquer objecto, carta etc, devendo-o fazer a polícia;
3º – Apertar a mão, abraçar, ou ter qualquer contato com os visitantes;
4º – Promover algazarras ou distúrbios na hora das visitas;
5º – Permanecer no Parlatório depois de terminada a hora de visitas.”
Lacrimejando, Nivaldo deixou o local com a lembrança da visita à mãe mais clara do que nunca. A realidade dela era agora a sua própria. Contudo, ao contrário de Augusta, ele não pôde contar com o amparo de Rosalina ao cruzar o pórtico de entrada da zona doente. Na verdade, nem a menina gozou de colo materno por muito tempo em Bauru.
Nivaldo e Augusta foram os únicos Mercúrio que, dentro do leprosário, conheceram o túmulo onde outros doentes enterraram Rosalina no dia 12 de dezembro de 1940, cinco anos após a mulher ser afastada da família e quase cinco anos antes da chegada do filho ao Aymorés.
Como consta no prontuário da paciente, Rosalina não sofreu grandes deformações no corpo mesmo no estágio mais avançado da doença. Teve rarefação de cabelos e sobrancelhas, o que é normal em casos de hanseníase virchowiana, e algumas lesões na face, braços e pés. Mas provavelmente se impressionou ao ver nos demais aquilo em que poderia se transformar.
*Adaptação do quarto capítulo do livro-reportagem “Lázaros – Histórias de portadores de hanseníase no Estado de São Paulo”, escrito em 2006.
Leia também:
Lázaros – Primeiro Capítulo
Lázaros – Segundo Capítulo
Lázaros – Terceiro Capítulo
Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses