Estado inicial
A vista ficou embaçada de repente. Foi o prenúncio do fim?

Da cama que fez de jazigo, já quase nada podia enxergar. O pescoço era movido poucos centímetros para a esquerda. Nenhum para a direita. Conformou-se em avistar o alto. A intensidade da lâmpada incandescente, pendendo do teto por dois fios corroídos, cegava-lhe os olhos.

A voz foi a primeira a esvair. Enrouqueceu durante um berro desesperado por auxílio. Julgava-se falando, embora afônico, porém descobriu que os seus sons não passavam de devaneios. Imaginava arrastar de pés no corredor, poucos metros à frente da cama. Nunca soube se alguém realmente caminhara ali.

Não se lembrava sequer da última pessoa que viu. Costumava fingir que não precisava de ajuda ao perceber a expressão de nojo alheia, mas a solidão sempre venceu o orgulho. Chegava a lacrimejar um choro silencioso para mendigar atenção. Sentia as lágrimas escorrerem pelas bochechas sem carne, orelhas pontudas e costas raquíticas antes de morrerem separadas no colchão mofado e sem lençol. Terminavam como ele próprio.

Chorar lhe causava calafrios e cócegas dolorosos. Ninguém jamais lhe enxugou o corpo. Suas mãos também não eram mais hábeis para a tarefa. Perdeu primeiro os movimentos dos membros superiores, depois os dos inferiores. A mente, contudo, permanecera viva e inquieta.

Passava todo o pouco muito tempo que lhe faltava com o cérebro em atividade. Pensava mais nos outros do que em si mesmo. Sabiam que o seu interior continuava imaculado? Que a sua imagem putrefata não condizia com o mau bem-estar de sua cabeça? Que permanecera vivo?

Não importava mais. Estava conscientemente sozinho. Restou-lhe indagar se alguém, mesmo que ao acaso, lembraria de sua existência. De quanto tempo precisamos para esquecer uma pessoa? Há quanto tempo ele jazia ali, afinal? Não sabia responder. Sua memória fora subitamente apagada.

Esforçou-se para idealizar alguém. Tentou familiares e amigos antes. Ele próprio em seguida. Em vão. Incomodado, criou cabelos, olhos, jeitos e cores para uma mulher que nunca conhecera. Ou já a havia visto?

Achava que estava sorrindo para ela, com a boca pálida e ressecada. Acreditou que substituíra o odor podre à sua volta por um doce perfume. Lábios e narinas falharam havia muito tempo. Foi então que a visão finalmente apagou.

Sentiu dois dedos delicados fecharem-lhe as pálpebras, do modo como procedem com os mortos. Os fios que sustentavam a lâmpada no teto cederam. Esperara ansiosamente pelo dia em que seria outra vez tocado por quem fosse. E mais ainda pelo sinal do fim.

 

Mas os pensamentos resistiram ao alerta. De quanto tempo precisamos para esquecer de nós mesmos? Para nos darmos conta da nossa inexistência?

Abriu os olhos de repente.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

ATO I

Quando a conheci, todas as suas palavras me fascinaram. Meu desejo era o de passar horas a ouvir todas as suas histórias, envolver-me em seus segredos e pensar no quanto sua intimidade seria ainda mais misteriosa e inacreditável do que eu supunha. Encantei-me. Você era perfeita e eu estava, instantaneamente, apaixonado.

ATO II

Após conhecê-la de fato, apaixonei-me por todos os seus defeitos. Passei a ver em suas fraquezas todos os sentimentos que eu teimava esconder em meus mais íntimos segredos. Tudo era tão humano, tão inconcluso e tão verdadeiro que imaginei por um segundo que não precisaria encenar absolutamente mais nada. Eu te amava.

ATO III

Anos depois, quando estava seguro de que o amor era inabalável, passei a perceber que suas qualidades e defeitos eram, única e exclusivamente, de sua propriedade. Existia uma barreira instransponível entre os seus sentimentos e os meus pensamentos. Éramos duas pessoas solitárias buscando, em conversas estéreis, uma maneira de não nos privarmos um do outro. As palavras já não faziam sentido. Nós já não existíamos.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Estamos na primeira semana do Sete Doses e o tema entre os colaboradores é o início. Desenvolvi essa dose_INDIE com músicas que estão nos primeiros discos das bandas e músicas que de alguma forma representam o começo.

Remexi nas caixas da minha memória à época em que estava sendo alfabetizado na escola indie da vida e encontrei bons momentos para desenvolver esse setlist. Minha memória é associativa e rapidamente despertada com fatos e acontecimentos corriqueiros. A música exerce um poder em minha mente e em segundos viajo no tempo: volto à época da faculdade, relembro amigos do passado, lugares onde estive, coisas que fiz, enfim, lembranças.

01 - The Smiths - You’ve Got Everything Now

02 - Morrissey - Pashernate Love

“You’ve Got Everything Now” está no disco homônimo e primeiro da carreira do The Smiths. Claramente, ele demonstra a genialidade da parceria Morrissey/ Marr. “Pashernate Love” foi gravada nas sessões de estúdio do Viva Hate, primeiro disco solo do Morrissey de 1988, mas só entrou definitivamente no setlist em 1997 em uma edição comemorativa. Lembro do Rio de Janeiro e das camisetas da Company dos anos 80 quando escuto The Smiths.

03 - Suede - The Drowners

04 - The Tears - Lovers

O Suede, antes de lançar qualquer material, foi capa do RESPEITADO Melody Maker, que para qualquer banda não é pouca coisa. Depois de gravarem o segundo disco, Dog Man Star, o guitarrista Bernard Butler partiu em carreira solo. Só recentemente, na banda The Tears, a parceria foi retomada com o vocalista Brett Anderson. 1993: “…do you believe in LOVE there?”

05 - The Strokes - Modern Age

06 - Albert Hammond Jr - In Transit

07 - Little Joy - Keep Me In Mind

08 - Nickel Eye - You And Everyone Else

Na época do lançamento, relutei para conhecer o som do The Strokes. Foi em um especial do Lado B da MTV que assisti e conheci a música “Modern Age”. QUE PRAZER ter sido com essa música. Foi impossível não encontrar o Lou Reed na voz do Julian Casablanca. Com as férias da banda, o Albert Hammond Jr, o Fabrizio Moretti e o Nikolai Fraiture se aventuram em novos projetos.

09 - Pavement - Frontwards

10 - Stephen Malkmus - Discretion Grove

“Frontwards” é a segunda música do Watery, Domestic. Ouvi esse EP do Pavement na casa de um amigo, pura raridade, peça de colecionador MESMO. Meu amigo tem um original. Tempos depois esse EP foi relançado na íntegra como CD Bônus no primeiro disco da banda: Slanted and Enchanted. Uma palavra sobre a carreira solo do Stephen Malkmus: HONESTA.

11 - Weezer - Holiday

12 - The Rentals - Friends Of P

Tinha me esquecido como é BOM o disco de estréia do Weezer. O redescobri pesquisando as bandas que gostaria de colocar nessa dose_INDIE. Gosto do The Rentals. “Friends Of P” facilmente alegra qualquer festinha, mas fico na dúvida: seria o baixista Matt Sharp atormentado pelo arrependimento?

13 - Blur - There’s No Other Way

14 - Gorillaz - Punk

15 - The Good The Bad And The Queen - Kingdom Of Doom

Para o Blur, depois da incerteza, o recomeço. Para o Gorillaz, depois do sucesso do primeiro disco, o quase sucesso do segundo disco, o descanso. Para o The Good The Bad And The Queen, the doubt.

16 - Oasis - Cigarettes And Alcohol

17 - Heavy Stereo - Smiler

18 - Ride - Leave Them All Behind

O clichê “sex, drugs and rock’ n’ roll” poderia ser completado com “cigarettes and alcohol”. Jagger e Richards estão certos: “it’s only rock’ n’ roll but i like it“. Gênios. “Smiler” e “Leave Them All Behind” representam o começo do fim, cada uma no seu tempo. Gem Archer assumiria a segunda guitarra do Oasis e Andy Bell o baixo.

 

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Lex publica seu podcast às sextas-feiras no Sete Doses